O Exorcista: Mártires ganha trailer e gera expectativa pela abordagem de Mike Flanagan

A Universal Pictures divulgou o trailer de O Exorcista, novo filme dirigido por Mike Flanagan e estrelado por Scarlett Johansson. A produção retoma o universo do clássico de William Friedkin, lançado em 1973, com uma história que aproxima investigação criminal, assassinos em série e relatos de possessão demoníaca. Chiwetel Ejiofor, Sasha Calle e Laurence Fishburne também compõe o elenco.
A escolha de Johansson para protagonizar um suspense sobrenatural sob a perspectiva de uma detetive chama a atenção pela possibilidade de acompanhar uma personagem habituada a buscar explicações concretas para acontecimentos que desafiam a lógica. Veja o trailer.
Vale lembrar que o embate entre explicações médicas e religiosas já foi explorado diversas vezes no cinema, de O Exorcista (1973) a O Exorcismo de Emily Rose (2005), que coloca essa tensão no centro de um julgamento. Ou seja, esse conflito faz parte de um imaginário bastante conhecido dentro do gênero. O que me interessa na abordagem de Mike Flanagan é a maneira como ele poderá trabalhar o sobrenatural a partir de sua perspectiva, considerando que suas obras costumam questionar a crença religiosa enquanto exploram possibilidades que ultrapassam as explicações convencionais.
O Exorcista: Mártires estreia nos cinemas brasileiros em 11 de março de 2027.
Trailer
O trailer apresenta um caso que parece ultrapassar os limites do trabalho policial e levanta questões sobre o papel da dimensão religiosa nessa história. Essa primeira amostra ainda deixa em aberto como a busca pelo responsável pelos crimes se conectará ao exorcismo evocado pelo título. Afinal, quem enfrentará a presença maligna quando os métodos policiais já não forem suficientes? E como Mike Flanagan, conhecido por obras subversivas como A Maldição da Residência Hill, Missa da Meia-Noite e a mais recente série adaptada do romance de Stephen King Carrie, a Estranha, pretende conciliar essa trama investigativa com o imaginário construído pelo clássico de William Friedkin?
Por enquanto, o trailer permite formular essas perguntas, sem oferecer respostas definitivas sobre o caminho que a narrativa seguirá. Mas são questões que despertam curiosidade cujas respostas serão importantes para entender o que justifica mais uma incursão nesse universo, sem que o filme se torne mais um exemplo de produção que se apoia apenas na força de uma propriedade intelectual para atrair seu público, mas entrega algo genérico e pouco comprometido com aquilo que tornou a obra original relevante.
Minha ressalva está também na associação historicamente questionável entre todos esses assassinos em série reais e supostas alegações de possessão demoníaca, sugerida por uma narrativa que parece apostar em uma abordagem extremamente apelativa.
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| Universal Pictures/Divulgação |
Por outro lado, noto no trailer alguns elementos que conversam com sua fonte. O silêncio sugerido entre as cenas, por exemplo, remete ao clássico de 1973, no qual os momentos de quietude e os ruídos ambientes contrastam perfeitamente com os sustos e com a intensidade das cenas de exorcismo, contribuindo para uma atmosfera de tensão que não depende apenas do horror explícito. Flanagan já demonstrou possuir domínio do silêncio em suas séries, construindo momentos de tensão que culminam em sustos genuinamente inusitados.
Também noto a sugestão de uma investigação sobre o sobrenatural que começa como algo externo à vida da protagonista, até ameaçar sua própria intimidade familiar. Essa aproximação gradual também remete ao filme original, no qual o horror invade progressivamente o espaço doméstico e transforma o lar, antes associado à segurança, ao afeto e ao conforto, em um lugar de hostilidade e desamparo. Acredito que Flanagan seja capaz de nos surpreender, e muito, mas ainda tenho dúvidas sobre a força dessa história em particular e sua capacidade de se sustentar para além do peso de uma marca tão conhecida.
Outro aspecto que pode integrar a narrativa é a relação entre ciência e sobrenatural. Nas obras do diretor, a fé costuma ser examinada criticamente, sobretudo pela maneira como influencia a interpretação dos acontecimentos e as decisões dos personagens. Em O Exorcista: Mártires, essa abordagem pode abrir espaço para questionar a própria prática do exorcismo, especialmente no contexto da Igreja Católica, retomando um conflito já presente no clássico de 1973, no qual a medicina é a primeira resposta diante dos sintomas de Regan. Hoje, a própria Igreja estabelece critérios para avaliar possíveis casos de possessão e prevê a distinção entre essas alegações e condições que exigem cuidados médicos, inclusive psicológicos e psiquiátricos.
Outro aspecto que pode integrar a narrativa é a relação entre ciência e sobrenatural. Nas obras do diretor, a fé costuma ser examinada criticamente, sobretudo pela maneira como influencia a interpretação dos acontecimentos e as decisões dos personagens. Em O Exorcista: Mártires, essa abordagem pode abrir espaço para questionar a própria prática do exorcismo, especialmente no contexto da Igreja Católica, retomando um conflito já presente no clássico de 1973, no qual a medicina é a primeira resposta diante dos sintomas de Regan. Hoje, a própria Igreja estabelece critérios para avaliar possíveis casos de possessão e prevê a distinção entre essas alegações e condições que exigem cuidados médicos, inclusive psicológicos e psiquiátricos.
Segundo o parágrafo 1673 do Catecismo da Igreja Católica: "[...] O exorcismo tem por fim expulsar os demónios ou libertar do poder diabólico [...] Muito diferente é o caso das doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. Por isso, antes de se proceder ao exorcismo, é importante ter a certeza de que se trata duma presença diabólica e não duma doença." Fica a dúvida sobre como Flanagan lidará com essa questão em uma história tão ligada à tradição católica e se a dimensão científica terá espaço na narrativa ou será deixada de lado em favor de uma nova abordagem.
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| Mike Flanagan em O Exorcista: Mártires (Universal Pictures/Divulgação) |
Vale lembrar que o embate entre explicações médicas e religiosas já foi explorado diversas vezes no cinema, de O Exorcista (1973) a O Exorcismo de Emily Rose (2005), que coloca essa tensão no centro de um julgamento. Ou seja, esse conflito faz parte de um imaginário bastante conhecido dentro do gênero. O que me interessa na abordagem de Mike Flanagan é a maneira como ele poderá trabalhar o sobrenatural a partir de sua perspectiva, considerando que suas obras costumam questionar a crença religiosa enquanto exploram possibilidades que ultrapassam as explicações convencionais.
O diretor costuma incorporar o sobrenatural como uma realidade concreta em suas narrativas, ao mesmo tempo que questiona as explicações religiosas oferecidas pelos personagens. Essa combinação permite que o fantástico ocupe um lugar central sem que as crenças envolvidas sejam necessariamente aceitas como respostas definitivas. Nessa nova adaptação, porém, há uma expectativa bastante específica associada ao próprio título. A presença de um exorcismo parece natural, mas o que me interessa é descobrir como Flanagan trabalhará com essa convenção. Ele seguirá o caminho que o público espera ou encontrará uma maneira de alterar nossa compreensão dos acontecimentos? Talvez o subtítulo, Mártires, acrescente outra camada de curiosidade à proposta.
Como espectador, gosto de entrar nas histórias sabendo o mínimo possível. Mas, neste caso, a familiaridade com a obra de referência torna essa experiência um pouco diferente, pois já existe um conjunto de expectativas a considerar. Quero observar como Flanagan conciliará o imaginário do clássico com sua própria maneira de explorar o sobrenatural, trazendo o tema a contemporaneidade. Além disso, espero saber o que o cineasta fará com um imaginário tão consolidado e se conseguirá surpreender quando acredito já saber o que esperar.
Como espectador, gosto de entrar nas histórias sabendo o mínimo possível. Mas, neste caso, a familiaridade com a obra de referência torna essa experiência um pouco diferente, pois já existe um conjunto de expectativas a considerar. Quero observar como Flanagan conciliará o imaginário do clássico com sua própria maneira de explorar o sobrenatural, trazendo o tema a contemporaneidade. Além disso, espero saber o que o cineasta fará com um imaginário tão consolidado e se conseguirá surpreender quando acredito já saber o que esperar.
O Exorcista: Mártires estreia nos cinemas brasileiros em 11 de março de 2027.
Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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