Carrie acolhe sua protagonista, mas Mike Flanagan parece ter medo de condená-la

A história de Carrie White já foi contada algumas vezes, e a versão de Brian De Palma, lançada em 1976, continua sendo uma grande referência. Por isso, a decisão de Mike Flanagan de adaptar novamente o romance de Stephen King poderia parecer desnecessária à primeira vista. O interesse, entretanto, não está apenas em acompanhar outra vez a trajetória da adolescente submetida à opressão materna e à crueldade dos colegas. Está na possibilidade de explorar aspectos que um longa-metragem dificilmente conseguiria desenvolver com o mesmo alcance e, principalmente, observar como essa história se comporta em um contexto social bastante diferente daquele em que foi concebida.

Flanagan já demonstrou afinidade com o universo de King em adaptações como Jogo Perigoso e Doutor Sono. Sua filmografia também revela um interesse recorrente por personagens atormentados, famílias disfuncionais e pessoas cujas ações são inseparáveis das experiências que as moldaram. Em séries como A Maldição da Residência Hill e Missa da Meia-Noite, esse interesse se manifesta na disposição de olhar para além das aparências e investigar as contradições de indivíduos que poderiam facilmente ser reduzidos a vítimas ou monstros. Em Carrie, essa abordagem encontra um material particularmente fértil.





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A protagonista, Carrietta ou Carrie, vivida por Summer H. Howell, é vítima de abusos, humilhações e isolamento, mas sua história também envolve a transformação do sofrimento em violência através de poderes sobrenaturais desenvolvidos ao longo da série. Ao longo da temporada, Flanagan demonstra sensibilidade para compreender a personagem, embora nem sempre pareça disposto a aceitar todas as implicações dramáticas dessa escolha. A questão é como adaptar essa tragédia sem simplificar suas contradições.

Uma das decisões mais pertinentes da série é transportar a história para a contemporaneidade. A violência escolar não desapareceu desde os anos 1970; ganhou novas formas de circulação e exposição através do cyberbullying, permitindo que situações constrangedoras ultrapassem os limites da escola e continuem repercutindo nas redes sociais. A vítima já não precisa estar diante de seus agressores para voltar a ser alvo deles. A série também direciona o olhar para além de Carrie, mostrando como outros estudantes, professores e até diretores se tornam alvos de provocações e desrespeito. A dinâmica deixa de se restringir à perseguição de uma única adolescente e passa a expor disputas de poder entre diferentes gerações, além do enfraquecimento da autoridade dentro do ambiente escolar. É um retrato que dialoga com a realidade de muitos sistemas educacionais, nos quais a dificuldade de estabelecer limites e mediar conflitos compromete as relações entre alunos e profissionais da educação.

Essa atualização oferece à série uma maneira convincente de aproximar Carrie de uma realidade reconhecível. A humilhação pública passa a envolver não apenas o ato de agredir, mas também a possibilidade de registrar, compartilhar e transformar o sofrimento alheio em entretenimento. Os abusadores recorrem à mesma desculpa para justificar seus abusos: it's just a joke (é só uma brincadeira). A crueldade ganha espectadores, e a participação coletiva pode tornar ainda mais difícil identificar onde termina a responsabilidade de quem inicia a violência e começa a de quem a perpetua.

O ponto forte dessa abordagem está em reconhecer que a conscientização sobre o bullying não eliminou o problema. Saber que determinada conduta é condenável não significa necessariamente abandonar a prática, sobretudo quando a exposição de outra pessoa oferece reconhecimento social ou a sensação de pertencer a um grupo. A série também encontra espaço para abordar o crescimento do conspiracionismo, aproximando o fanatismo e a desconfiança em relação ao mundo de um presente marcado pela circulação de informações falsas e por comunidades que reforçam suas próprias crenças. Essas escolhas estendem o contexto social da história sem exigir que o espectador abandone o núcleo trágico de Carrie.

O problema é que a atualização do cenário também altera o equilíbrio da narrativa. Ao acrescentar novos personagens, interesses e explicações para os acontecimentos, Flanagan modifica a maneira como interpretamos a trajetória da protagonista. A expansão que torna a série mais abrangente também pode dispersar o peso dramático que, no romance original, se concentra no encontro entre a opressão sofrida por Carrie e a violência que ela acaba desencadeando.


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Gosto particularmente da maneira como Flanagan se recusa a tratar os agressores de Carrie como figuras naturalmente perversas. Christine, vivida por Alison Thornton, é um exemplo importante dessa escolha. A série investiga aspectos de sua criação e de seu ambiente familiar que ajudam a compreender seu comportamento, revelando como relações parentais problemáticas podem contribuir para a formação de pessoas que reproduzem a violência que conhecem dentro de casa. Nesse caso, Christine é filha de um pai que não parece dedicado a ela e muitas vezes a critica por exigir o básico, como um café da manhã decente, por exemplo. Seu pai é considerado um bullying em dado momento, mas ao meu ver é um homem autocentrado. Não egocêntrico ao estremo, mas dá a entender que ele não toma responsabilidade pelos seus atos, e isso serve de exemplo a filha também. 

Vale ressaltar que existe uma diferença fundamental entre explicar a crueldade e justificá-la. Uma pessoa pode ter sido criada em um ambiente tóxico e, ainda assim, ser responsável pela maneira como trata os outros. Carrie é um exemplo disso. Assim como Christine, ela enfrenta a repressão dentro de casa, mas nem por isso transforma o próprio sofrimento em motivo para maltratar as pessoas ao seu redor. O sofrimento doméstico não determina como alguém tratará os outros, a série comunica... Enquanto algumas pessoas reproduzem fora de casa a violência a que são submetidas, transformando suas próprias frustrações em humilhação, controle e agressividade, outras, como Carrie, preservam a gentileza e a empatia, apesar de tudo.

É por isso que considero interessante a abordagem de Flanagan. Ele demonstra que a violência não precisa surgir de um vazio moral e que os indivíduos não existem isolados das relações que os formaram. Christine pode ser cruel sem que a crueldade seja a única característica relevante de sua personalidade. Tamanha compreensão, entretanto, exige que a narrativa preserve a responsabilidade de cada personagem. Conhecer as feridas de alguém não significa ignorar as feridas que essa pessoa provoca nos outros. Se a série consegue tornar Christine mais compreensível ao revelar as condições que contribuíram para seu comportamento, deveria aplicar a mesma complexidade a Carrie sem transformar a protagonista em alguém que precisa ser constantemente protegida das consequências de suas ações.

É nesse ponto que minha interpretação começa a divergir daquilo que considero ser a intenção de Flanagan. Sua disposição para acolher personagens feridos é uma qualidade, mas a busca por explicações pode se tornar uma forma de deslocar a responsabilidade. Quando todos parecem agir sob a influência de traumas, ambientes nocivos ou forças externas, existe o risco de que ninguém precise responder inteiramente pelo que faz.


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Entre as novidades da adaptação, Emaline West, vivida por Thalia Dudek, é provavelmente a personagem que mais me interessa depois da própria Carrie. Sua presença introduz uma relação que parece oferecer à protagonista algo que lhe faltou durante toda a vida: alguém capaz de enxergá-la sem reduzi-la à garota estranha que os outros acreditam conhecer. A princípio, pensei que Emaline fosse um fantasma, porque Carrie demonstra perceber manifestações sobrenaturais, e a aparição de seu pai morto reforça a possibilidade de que ela seja capaz de enxergar tais coisas. A hipótese parecia coerente com as regras que a própria série estabelece para ela. A explicação, porém, é outra. 

Emaline é uma projetora astral, capaz de projetar sua consciência para além do próprio corpo. Sua presença não corresponde à de um espírito, e a relação que estabelece com Carrie pertence a uma dimensão diferente da experiência sobrenatural apresentada inicialmente pela série. A revelação modifica a maneira como interpretamos os encontros entre as duas. Emaline não é simplesmente uma aparição percebida por uma adolescente cuja relação com a realidade já é constantemente questionada. Ela é uma personagem com existência própria, interesses e capacidades que Carrie desconhece. O vínculo entre elas, portanto, não depende apenas daquilo que Carrie acredita estar vendo.

O que mais me incomoda não é a natureza sobrenatural de Emaline, tampouco a decisão de introduzir uma personagem que não existe no romance original. Minha principal ressalva está na falta de transparência com que ela conduz essa aproximação. Emaline não é inteiramente direta e honesta com Carrie desde o começo, deixando que a protagonista interprete sua presença sem compreender plenamente quem está diante dela e quais são as suas intenções. 

Essa omissão tem consequências importantes porque Carrie já vive cercada por pessoas que tentam controlar sua experiência do mundo. Sua mãe impõe uma interpretação religiosa e opressora da realidade, enquanto os colegas a transformam em alvo de humilhações. Encontrar alguém que parece compreendê-la deveria representar uma possibilidade de romper com esse ciclo. No entanto, Emaline também estabelece uma relação na qual Carrie não dispõe de todas as informações necessárias para compreender a pessoa em quem começa a confiar. E isso acarreta consequências ainda mais devastadoras a protagonista, porque, embora Emaline ofereça companhia e compreensão, somente Carrie consegue vê-la. E para as outras pessoas, Carrie continua conversando com alguém que não está fisicamente presente, o que reforça a percepção de que ela está falando sozinha.


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Esta é uma situação dramaticamente interessante porque transforma a possibilidade de acolhimento em mais um fator de isolamento. Carrie encontra alguém com quem pode estabelecer uma conexão, mas essa conexão não é reconhecida por ninguém ao seu redor. A presença que deveria diminuir sua solidão acaba contribuindo para que ela pareça ainda mais desconectada das pessoas que compartilham sua realidade cotidiana.

A contradição se torna mais complexa quando consideramos os interesses que motivam a aproximação de Emaline e sua participação nos acontecimentos posteriores. Ela não surge exclusivamente como uma amiga espontânea, e sua relação com Carrie está ligada a questões que ultrapassam as necessidades emocionais da protagonista. O que parece intimidade também envolve observação e influência. Por isso Emaline representa uma das melhores e, ao mesmo tempo, mais problemáticas adições da série. Ela oferece a Carrie uma forma de reconhecimento, mas não necessariamente a autonomia necessária para compreender o que está acontecendo. Sua ajuda não é desprovida de consequências, e a série nem sempre parece interessada em explorar inteiramente o desconforto dessa condição.

Ainda assim, considero Emaline uma personagem fascinante porque sua função não se limita a oferecer conforto. Ela introduz uma ambiguidade que impede que a relação seja interpretada como uma amizade convencional. Existe acolhimento, mas também existem segredos, interesses ocultos e uma assimetria de conhecimento entre as duas. O mais interessante é que Emaline não precisa ser uma vilã para que suas ações sejam questionáveis. Ela pode demonstrar afeto e ainda assim contribuir para uma situação prejudicial. Pode acreditar que está ajudando Carrie sem compreender inteiramente o efeito de sua presença sobre alguém que já se encontra em uma posição de extrema vulnerabilidade. Essa ambiguidade seria ainda mais poderosa se a narrativa se detivesse nas consequências da relação para Carrie, em vez de utilizá-la principalmente como um mecanismo para expandir a mitologia sobrenatural da adaptação.


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A tentativa de proteger Carrie de si mesma continua sendo o seu maior problema. A questão da responsabilidade ganha outra dimensão quando a influência de Emaline interfere diretamente nas ações de Carrie. Ao aumentar o papel de forças sobrenaturais e introduzir personagens capazes de afetar a protagonista, Flanagan cria novas explicações para acontecimentos que, na história original, estão associados à trajetória de Carrie e à manifestação de seus poderes unicamente. O resultado é uma mudança significativa no peso moral da tragédia. Carrie continua sendo vítima de uma violência sistemática, mas, nesta nova adaptação, suas ações passam a ser interpretadas dentro de uma rede de influências que envolve outras pessoas e suas capacidades extraordinárias.

Não considero isso necessariamente um erro. Uma adaptação não precisa reproduzir o livro de maneira literal, e a liberdade para transformar personagens e acontecimentos pode produzir releituras interessantes. A própria história de Carrie já demonstrou sua capacidade de sobreviver a interpretações diferentes. O filme de De Palma, por exemplo, modificou o desfecho do romance e conquistou a aprovação do próprio Stephen King, que aqui também aprova a releitura de Mike Flanagan, destacando o modo como a série incorpora o impacto das redes sociais à história original. A questão é o que essas mudanças acrescentam à história. No caso de Emaline, a intervenção sobre Carrie cria uma ambiguidade que pode enriquecer a narrativa, mas também corre o risco de atenuar a responsabilidade da protagonista quando a história deveria confrontar o espectador com as consequências de sua transformação.

Flanagan parece interessado em acolher Carrie, em demonstrar que sua violência não pode ser compreendida sem considerar tudo aquilo que sofreu. Mas, existe uma diferença entre reconhecer as condições que conduzem alguém a um ato extremo e transferir para outras pessoas parte significativa da responsabilidade por ele. Carrie não precisa ser uma vilã desprovida de humanidade para que sua tragédia tenha força. Também não precisa ser inteiramente inocentada para que o público compreenda sua dor. Sua condição de vítima e sua capacidade de provocar sofrimento podem coexistir. Na verdade, é essa coexistência que torna a personagem tão perturbadora.

Ao introduzir novas figuras que interferem em sua trajetória, a série parece hesitar diante dessa contradição. Em vez de deixar Carrie ocupar plenamente o espaço desconfortável entre a vítima e a agressora, a narrativa oferece elementos que tornam suas ações mais compreensíveis por meio da influência de terceiros. Minha impressão é que Flanagan tenta humanizar Carrie e acaba, em determinados momentos, diminuindo sua autonomia. A protagonista recebe novas possibilidades de acolhimento, mas também passa a dividir com outros personagens o peso de acontecimentos que deveriam continuar ligados à sua própria trajetória.


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A estrutura de uma série oferece a Flanagan mais tempo para desenvolver personagens secundários, explorar relações familiares e investigar as consequências sociais do bullying. A atualização para a era digital também permite que ele trate a humilhação como um fenômeno que ultrapassa os limites da escola. A realidade armamentista dos Estados unidos também é uma realidade retratada na série. São escolhas pertinentes, que demonstram como uma história publicada nos anos 1970 ainda dialoga com questões contemporâneas, e o que isso fala sobre nós mesmos.

A ampliação da mitologia sobrenatural, por sua vez, abre possibilidades para além do material original. Emaline é o exemplo mais evidente desse movimento, pois sua presença transforma a experiência de Carrie e introduz novas perguntas sobre a origem, o funcionamento e as consequências de seus poderes. A série também recorre a referências históricas de mulheres que afirmavam receber mensagens de entidades sobrenaturais ou manifestar capacidades extraordinárias, como Joana d’Arc, para situar os poderes de Carrie em uma tradição marcada pela relação entre o feminino, o sagrado e o inexplicável. 

Ao recuperar essas figuras e as consequências sociais e políticas associadas às suas experiências, a série sugere que mulheres com habilidades incompreendidas foram frequentemente tratadas como ameaças, submetidas ao controle ou transformadas em símbolos de forças que escapavam à compreensão de sua época. Assim, a história de Carrie passa a integrar uma discussão mais ampla sobre o medo provocado por mulheres que desafiam os limites impostos ao que podem ser e fazer. Com essa nova abordagem, Flanagan talvez tenha se perguntado a natureza dos poderes de Carrie e por que ela deveria ser a única a possuí-lo. Isso pode justificar a criação de figuras como Emaline, por exemplo.

A série ganha novas camadas de informação, mas corre o risco de dispersar a força de uma tragédia que depende da dificuldade de separar a violência sofrida por Carrie daquela que ela própria passa a exercer. A intenção de Flanagan parece ser a de oferecer uma leitura complementar do romance, em vez de simplesmente reproduzir os acontecimentos conhecidos. O problema não está em mudar a história, mas em avaliar se as mudanças aprofundam os conflitos ou se acabam tornando mais confortável aquilo que deveria permanecer incômodo. Pois, nem toda expansão aprofunda necessariamente o drama. Às vezes, acrescentar personagens e explicações significa diminuir o espaço reservado às contradições que já sustentavam a história. 

A humanização de Christine funciona porque permite compreender sua crueldade sem eliminar a responsabilidade que ela tem por suas ações. A relação entre Carrie e Emaline, por outro lado, levanta uma questão que a série poderia explorar com mais rigor, pois, até que ponto o acolhimento oferecido por outra pessoa pode se transformar em uma forma de controle? E até que ponto a influência externa modifica a maneira como julgamos as decisões de Carrie? São perguntas que enriquecem a adaptação, embora nem sempre encontrem respostas dramáticas à altura de suas possibilidades.

Minha maior ressalva está na forma como a narrativa distribui a responsabilidade pelos acontecimentos. Ao tentar acolher Carrie e oferecer explicações para suas ações, Flanagan introduz personagens e forças que disputam com a protagonista o controle de sua própria história. O resultado é uma tragédia que ganha novas possibilidades interpretativas, mas que por vezes perde parte de sua contundência moral. Flanagan parece tão empenhado em compreender Carrie que corre o risco de protegê-la das consequências daquilo que ela faz. E talvez sua adaptação encontre seu maior conflito nisso. Ao tentar oferecer à protagonista o acolhimento que sempre lhe faltou, a série parece hesitar diante da possibilidade de deixá-la ser, ao mesmo tempo, uma vítima digna de compaixão e uma personagem capaz de provocar horror. Essa contradição não deveria ser um problema a resolver. Deveria ser o coração da tragédia.





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A série Carrie estreou em 7 de outubro de 2026 e está disponível para streaming no Prime Video. Os oito episódios da primeira temporada foram lançados na mesma data.






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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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