Matéria Escura 'Episódio 5' Encontra Amor Onde Parecia Não Haver Mais Nada

Há algo especialmente singular em "Love and Be Loved", quinto episódio da segunda temporada de Matéria Escura, que segue em transmissão semanal no Apple Tv+. Depois de episódios marcados por disputas, perseguições e conflitos de interesses entre diferentes versões de uma mesma realidade, a série diminui o passo para expandir uma das linhas de realidade paralela que poderia facilmente ser negligenciada. Em vez de avançar diretamente a guerra entre os mundos, a série olha para alguém que ficou para trás e entrega o desfecho episódico e, quiçá, definitivo do arco daquele Jason, em um dos retratos de personagem mais bonitos da TV recente.

Dirigido por Alik Sakharov, o episódio acompanha um dos Jasons que ajudaram a permitir que Jason, Daniela e Charlie partissem em busca de uma realidade onde pudessem viver em paz. É uma escolha particularmente interessante porque, até então, essas outras versões de Jason (todas elas vividas por Joel Edgerton) funcionavam como consequência do conceito de multiverso. Eram homens que existiam porque poderiam existir; como cópias ou réplicas cênicas. Aqui, entretanto, a série se pergunta o que acontece depois que a história de outra pessoa termina.

E a resposta não é imediatamente reconfortante.





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Esse Jason perdeu a família que considerava sua. Perdeu a vida que queria recuperar. Perdeu inclusive a possibilidade de continuar sendo a mesma pessoa que era antes. O episódio começa, portanto, em um lugar de luto bastante concreto, e sua primeira metade pode até parecer deslocada diante da narrativa maior da temporada. A mudança de tom é notável. Durante quase uma hora, com poucos diálogos, ele se afasta aparentemente da trama principal para acompanhar esse personagem em seu próprio tempo.

Eu mesmo demorei a acompanhar esse ritmo. Dei play no episódio no domingo passado (27/set), mas parei aos 17 minutos e só consegui retomá-lo agora, após o lançamento do sexto episódio. Geralmente, quando pauso alguma série por desinteresse de alguma natureza, não volto mais. Neste caso, porém, havia algo que me mantinha investido naquela história e eu precisava desvendar. A primeira cena retoma um momento do episódio final da primeira temporada, quando esse Jason, cercado por diversas outras versões de si mesmo, ajuda a família Dessen daquele mundo a escapar pela Caixa. Conforme o episódio avança, aquela aparente distância da trama principal começa a fazer sentido. Porque "Love and Be Loved" não está interessado em descobrir qual Jason merece aquela família. O episódio altera esse padrão. Está mais interessado em descobrir se um Jason que perdeu tudo ainda pode ter uma vida.

É quando o multiverso deixa de funcionar apenas como uma ferramenta de ficção científica e passa a representar uma ideia bastante humana. Se existem infinitas possibilidades, a perda também pode parecer infinita. O episódio, assim como o tema da própria série como um todo, presume que sempre haverá uma versão daquilo que Jason poderia ter sido, da pessoa que poderia ter amado, da família que poderia ter construído. O problema é que conhecer essas possibilidades não significa poder voltar para elas. Para esse Jason, aceitar essa impossibilidade entre as realidades também é uma forma de luto.

A diferença é que, em vez de transformar a perda em uma condenação permanente, ele permite que esse Jason continue. A possibilidade de encontrar sua mãe, Ellie, vivida por Linda Bove, de voltar a uma casa que já não é exatamente sua e, principalmente, de construir uma nova relação, dá outro significado àquilo que aconteceu com ele. Não se trata de substituir Daniela, Charlie ou a vida anterior. É também uma escolha narrativa importante, porque os roteiristas entendem que os Jasons não precisam estar eternamente destinados às Danielas de cada realidade, como se o amor por ela exigisse procurá-la repetidamente pelo multiverso. O episódio rompe com essa ideia de amor inevitável e quase obsessivo para permitir que esse Jason siga em frente sem que isso diminua o que viveu com a sua Daniela original.

É uma distinção simples, mas poderosa.

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É nesse ponto que o título do episódio ganha força. Amar e ser amado aparecem como duas necessidades diferentes. Jason não precisa encontrar exatamente aquilo que perdeu para voltar a experimentar amor. Ele precisa encontrar alguém disposta a recebê-lo como ele é agora, com toda uma história que ela não viveu ao seu lado. Essa personagem é Maria, vivida por Angela Sarafyan (capa).

O momento em que Jason revela seu passado para essa nova possibilidade é especialmente significativo, pois, ele não apaga Daniela; não finge que aquela família nunca existiu. Ao contrário, ele permite que outra pessoa conheça a parte de sua vida que poderia parecer mais difícil de aceitar. E é essa vulnerabilidade que abre espaço para alguma coisa nova. E, quando Maria decide permanecer ao seu lado, demonstra ter encontrado segurança onde antes havia insegurança. Ela compreende que amar Jason não significa competir com a família que existiu antes dela.

Há, então, uma ironia bonita no episódio. O Jason que não conseguiu ficar com sua família talvez seja o que finalmente aprende que uma vida não precisa ser determinada pelaquilo que foi perdido. Isso também explica por que a ausência da trama principal funciona tão bem. A segunda temporada poderia usar cada episódio para ampliar a mitologia, explicar as regras do multiverso ou aproximar seus personagens do próximo conflito. Em vez disso, a série dedica quase uma hora a um homem que poderia facilmente ter permanecido como uma nota de rodapé. E transforma essa nota de rodapé em uma história sobre recomeço. Pois não existe uma máquina capaz de consertar o luto. Não existe uma realidade perfeita que torne a anterior irrelevante. Existe apenas a possibilidade de continuar.

Entre guerras e conflitos de interesses entre diferentes universos, o episódio faz uma pausa para acompanhar o que resta a Jason depois de perder Daniela e a vida que imaginava ter. Para ele, o multiverso deixa de representar apenas as inúmeras vidas que poderiam ter sido suas e passa a abrir a possibilidade de uma vida que ainda pode ser construída. Perder Daniela não significa que Jason tenha perdido a capacidade de amar, nem que precise passar o restante de sua existência procurando por ela em cada realidade possível. Pela primeira vez, ele parece aceitar que aquela vida ficou para trás e que outra pode começar.





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Há ainda um aspecto formal que chama minha atenção e que ajuda a definir a experiência desse episódio desde os primeiros minutos. A história é contada muitas vezes no silêncio. A presença de Ellie, mãe de Jason e uma mulher surda, naturalmente desloca parte da comunicação para os gestos e para a Língua Americana de Sinais, mas Alik Sakharov transforma essa escolha em algo maior do que uma característica da personagem. O olhar, os movimentos e os pequenos gestos passam a carregar uma intimidade que não precisa ser verbalizada, em uma atuação para a qual Joel Edgerton também precisou aprender ASL.

A fotografia acompanha esse estado emocional, pois, o inverno, a neve e os ambientes frios criam uma paisagem desabitada, enquanto a imagem desaturada reforça o isolamento e a melancolia. Jason parece existir em uma realidade que perdeu suas cores junto com aquilo que lhe dava sentido. E Sakharov, que já dirigiu episódios de Ozark, The Americans, Counterpart e Game of Thrones, mantém a câmera próxima do personagem, deixando que a atmosfera faça parte da narrativa, sem transformar sua solidão em espetáculo. Eu gosto muito do primeiro encontro entre Jason e Maria na livraria. O diálogo é limpo, sem rodeios, mas cheio de sagacidade, o que ajuda a quebrar o gelo da própria narrativa depois de toda a melancolia que marca o episódio até ali.

Esse tratamento aproxima o episódio de experiências como "Long, Long Time", de The Last of Us, e de alguns momentos de The OA, em que uma narrativa maior abre espaço para observar seus personagens de maneira mais íntima. Aqui, porém, essa suspensão da mitologia não representa um afastamento do que Matéria Escura está construindo. Ela ajuda a dimensionar ainda mais o próprio multiverso ao mostrar o que acontece quando uma de suas inúmeras possibilidades deixa de ser uma alternativa e passa a ser apenas uma vida que não pode mais ser recuperada.

Para quem acompanha o Dark Matter: The Official Podcast, o podcast semanal da série, vale notar que o quinto episódio do podcast ganhou formato de vídeo. Nele, roteiristas, diretor e parte do elenco se reúnem para comentar a criação do episódio e as escolhas feitas durante sua realização.







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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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