Entre referências descaradas e humor absurdo, Widow's Bay transforma o déjà vu em virtude narrativa (Comentário com SPOILER)

O Segredo de Widow's Bay, nova série da Apple TV+, ocupa um espaço raro dentro da comédia de terror. A produção habita o limiar exato entre homenagem, sátira e paródia, absorvendo décadas inteiras do imaginário do horror para transformá-las numa comédia afiada e autoconsciente.

Numa ilha fictícia onde parecem convergir os acontecimentos mais sinistros imagináveis, tudo o que poderia dar errado no campo do sobrenatural já deu. Há lendas urbanas, serial killer mascarado, grimório travestido de livro de autoajuda, ritual macabro, e até um figura que evoca diretamente o imaginário do palhaço assassino popularizado por It: A Coisa. O próprio nevoeiro que assola a ilha remete inevitavelmente a The Mist. A sensação é a de assistir a décadas do cânone do terror espremidas num único cenário.

A série encara esse jogo de referências com ousadia e irreverência. Parece dizer ao espectador que nada se cria, tudo se transforma. E se é para reciclar ideias, que seja à vista de todos. As referências estão por toda parte e são frequentemente escancaradas. Ainda assim, a série encontra novidade na forma como reorganiza essas peças conhecidas. Caminhos familiares conduzem a resultados inesperados. Até mesmo o humor-sem-sentido encontra lugar aqui. E não faltam alusões a Twin Peaks, seja na concepção de uma pequena comunidade isolada cercada de mistérios, seja na estética de suas propagandas bizarras, como se cada comercial escondesse um segredo ainda mais perturbador do que a própria ilha; apenas para não nos levar a lugar nenhum.





Apple TV+

O termo que talvez melhor descreva Widow's Bay seja pastiche pós-moderno de horror. A série reúne elementos que vão de Stephen King aos slashers, passando por maldições, lendas urbanas e casas mal-assombradas, reorganizando esse repertório num novo contexto. Chamar a obra simplesmente de "paródia de terror" parece insuficiente. Essa expressão remete a algo como Scary Movie, em que a piada é o objetivo principal. A série se aproxima mais de obras como The Cabin in the Woods e What We Do in the Shadows, produções que conhecem profundamente as convenções do gênero e extraem humor justamente desse conhecimento.

No elenco, Matthew Rhys interpreta o prefeito Tom Loftis, um cético obstinado, daqueles incapazes de acreditar em fantasmas mesmo diante de evidências esmagadoras. É o tipo de homem que se trancaria voluntariamente num hotel supostamente mal-assombrado apenas para provar que todos estão errados – e, naturalmente, descobrir que talvez o erro estivesse do lado dele. Há algo no Loftis que me faz lembrar do impacto causado por Bryan Cranston em Breaking Bad, naquele raro momento em que um ator parece encontrar o papel exato para revelar facetas que o público ainda não havia percebido por completo. Se a série mantiver o fôlego, não me surpreenderia ouvir o nome de Rhys circular nas próximas temporadas de premiações.

Já Patricia, vivida por Kate O'Flynn, talvez seja uma das "final girls" mais determinadas que o gênero já produziu. Ela representa aquilo que muitos espectadores sempre pensaram durante um filme de terror: por que simplesmente não garantir que o assassino esteja realmente morto? No episódio 8 – que por um momento pareceu funcionar como final de temporada pra mim – Patricia faz exatamente isso. Em vez de virar as costas e permitir o inevitável retorno do serial killer, ela permanece de arma em punho até que não reste absolutamente nenhuma chance de ressurreição. Digamos apenas que ela leva o conceito de "confirmar a morte" a níveis quase burocráticos. É hilário.


Da esquerda para a direita, Neil Casey, Hiro Murai, Katie Dippold e Matthew Rhys durante evento promocional de Widow's Bay. Foto: Dan Steinberg/Apple TV via Getty Images.

Os nomes por trás de Widow's Bay talvez expliquem por que a série transita com tanta naturalidade entre humor, terror e estranheza. A criação é de Katie Dippold, roteirista de Parks and Recreation, enquanto a direção de parte da temporada, incluindo o episódio piloto, fica a cargo de Hiro Murai, veterano de séries como AtlantaBarry e alguns episódios da série Mr. & Mrs. Smith.

Widow's Bay também reforça uma impressão que vem se tornando cada vez mais difícil de ignorar. A Apple TV+ talvez possua hoje uma das curadorias mais consistentes do streaming. Seu alcance ainda parece modesto quando comparado ao de concorrentes maiores, mas a plataforma segue acumulando séries visualmente sofisticadas, elencos de peso e produções que frequentemente entram no radar do público pela qualidade antes mesmo da publicidade.

Chama a atenção, inclusive, o marketing relativamente discreto que costuma acompanhar as primeiras temporadas de muitas de suas séries. Não está claro se isso é limitação, escolha editorial ou estratégia deliberada, mas fica a impressão de que a plataforma prefere permitir que o boca a boca faça seu trabalho antes de abrir os cofres para campanhas mais agressivas em temporadas posteriores. Se for esse o caso, trata-se de uma aposta arriscada, mas que já deu resultado mais de uma vez.

Estreada em 29 de abril, e com a segunda temporada já confirmada, Widow's Bay tem todos os ingredientes para ser a próxima produção a seguir esse caminho.






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Ainda falta ir ao ar o décimo e último episódio, no dia 17 de junho, do qual sinceramente não sei o que esperar. Depois de nove episódios, aprendi que, em Widow's Bay, isso costuma ser um bom sinal.








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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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