O Drama se afirma na montagem e faz jus ao nome para além do esperado (Análise com Spoiler)
Acabei conferindo O Drama, movido pelo que se construiu em torno do segredo de Emma, vivida por Zendaya, e a vontade de saber como Kristoffer Borgli, seu diretor, desenvolve a nova investida depois de Dream Scenario. Isso importa porque a experiência com o filme começa antes mesmo de ele se organizar de fato, ou de assumir que não pretende se organizar.
Há uma sensação constante de instabilidade, como se ele fosse encontrando sua forma enquanto se desmonta, como se a montagem estivesse sempre um passo à frente da história. A sua abertura, por si só, é uma mescla de duas linhas no tempo: o primeiro encontro do casal e o planejamento do casamento. Por isso a impressão de que o filme nasce na montagem. Ou então o roteiro, também assinado por Borgli, opera nesse mesmo nível de precisão. O que permanece é uma reorganização contínua, uma estrutura que nunca se fixa completamente. A história por si só não explica o impacto que ela causa. Portanto, é na sobreposição de temas, som e imagens que o filme sustenta o que poderia facilmente perder relevância.
| Emma lendo "The Damage" – um livro que só existe no filme. |
Acompanhamos o ritmo clássico do primeiro contato na cafeteria, o artifício clichê de interesse pelo livro que a parte desejada está consumindo no momento da abordagem, mas isso muda com a primeira revelação que nos puxa para dentro, e nos cativa; o drama pessoal de Emma. O filme abre com um primeiríssimo plano numa de suas orelhas. Por que disso? O filme não demora a responder. Emma é surda de um ouvido. A informação reorganiza o olhar e logo desperta em mim a curiosidade, a vontade de entender a origem, o motivo, a relevância desse detalhe; o que há nele que sustenta tanto interesse naquele momento.
Não é raro um filme começar pelo trauma. É um atalho eficiente de narrativa muito utilizado para reter nossa atenção, nos fazer questionar, pois, agora nos importamos com a personagem em um nível mais íntimo; queremos saber por que Emma é surda. Ela nasceu assim? O que aconteceu ou por que isso importa a narrativa? Esse gesto, além de capturar nossa atenção, cria uma promessa. O filme assume um compromisso com quem assiste. Existe algo ali que será desenvolvido, explicado, ressignificado ao longo do percurso.
A forma como Borgli mostra esses momentos de rrevelação aparecem em flashbacks, às vezes como sonhos e outras como memórias. Algumas imagens também se misturam para nos mostrar como determinados personagens perseguem as situações. Como quando o personagem de Robert Pattinson, Charlie, projeta em seu presente a imagem adolescente de Emma, a pessoa que ela não é mais. E essa é a raiz do seu problema.
De fato, o que se espera desse filme a partir do marketing é que o drama seja Emma. Porque é nela que a atenção se fixa de imediato e tudo parece se organizar num primeiro momento. Mas esse é um desvio de atenção brilhantemente elaborado antes mesmo de vermos o filme.
O presente de Charlie entra em parafuso. Depois da revelação de Emma, a imagem que ele constrói dela se fixa nessa adolescente problemática que ela já não é mais. Ele não consegue deixar o passado onde ele pertence. Ao contrário, absorve esse passado como se fosse algo tóxico que pegou do ar e que passa a contaminar o seu próprio presente. Ele perde qualquer medida, reagindo sempre por impulso antes de compreender seu próprio comportamento.
Já Emma está longe de ocupar o lugar de antagonista. Ela sequer chegou a realizar o pior na adolescência. O que o filme apresenta é a existência de uma ideia que ganha forma por um período, mas que não se concretiza. A partir daí, o próprio percurso da personagem se desloca. Ela encontra outras possibilidades de pertencimento, constrói novas relações e, de alguma maneira, reorganiza a forma como se vê no mundo. O ambiente escolar em sua adolescência meio traumática, como o filme sugere, aparece como um espaço de tensão e formação ao mesmo tempo. As experiências ali vividas moldam percepções, distorcem referências e, em alguns momentos, a empurra para zonas mais frágeis de si mesma.
Emma atravessa esse território e carrega as marcas dele, mas não permanece presa a esse período da vida. Além disso, o filme não propõe uma explicação definitiva sobre o seu problema, mas sim um olhar sobre algo que costuma permanecer quieto. A ideia de que pensamentos extremos podem existir sem jamais se tornarem ação, e que, ainda assim, carregam peso quando revelados. O passado é apresentado não como sentença, mas como uma camada que precisa ser encarada, tanto por ela quanto por quem está ao seu lado.
No filme Dream Scenario ("O Homem dos Sonhos"), Borgli já tratava a narrativa como algo permeável. Os sonhos invadiam a realidade e bagunçavam a percepção do espectador. Essa mesma lógica continua em O Drama, mas deslocada para dentro da própria construção das cenas, onde imagens surgem como extensões do pensamento, lembranças e projeções que atravessam o presente e passam a compô-lo.
Observando o uso dos sonhos em O Drama, percebo que, no caso de Emma, os sonhos aparecem como informações isoladas da experiência, não como influência da sua história no presente. É a partir de um sonho que entendemos como ela ficou surda, mas esse sonho não interfere diretamente nas suas escolhas ao despertar. Há uma espécie de separação clara entre o que ela sonha e o que ela vive quando acorda. O susto ao despertar do sonho, ou pesadelo, talvez seja uma pista bem sacada do filme e sua montagem ou roteiro, pois, com Charlie acontece algo completamente oposto.
Mesmo depois de acordar do seu respectivo pesadelo, Charlie parece permanecer dentro de um estado de sonho, ou de reverberação dele. Pois, o pesadelo que envolve um massacre num casamento não se dissolve por completo nem há ruptura ou susto. Sequer vemos como Charlie desperta. Se é que desperta. Ao fim do pesadelo aparece o rosto de Emma (como na capa) seguido da imagem da sala de estar da casa do casal, para onde Charlie desce. Chega a ser um pouco difícil associar imediatamente essas imagens a ele, como se houvesse um deslocamento entre quem ele é e o que a mente dele produz. Mais do que isso, ele não apenas sonha, ele continua operando a partir dessas imagens.
Na sala de jantar, ele olha pro sofá e tem uma lembrança que reforça a nova imagem que constrói de Emma. Ela passa a ser percebida como insana, porque é isso que ela fala de si mesma na lembrança, ao comentar sobre uma foto sua usando óculos na adolescência. Além dos sonhos, também surgem pensamentos e projeções que Charlie não consegue separar da realidade com a mesma autonomia que Emma...
Acredito que esse filme seja um prato cheio para psicólogos e entusiastas da psicanalise ou algo do tipo. Depois de assistí-lo, torna-se fácil perceber que o drama sugerido vem muito mais da forma como seus personagens reagem ao segredo de Emma do que do seu passado em si. Há uma ironia evidente nisso, já que o conflito se afasta cada vez mais de sua origem e passa a se alimentar das reações, fofocas e zombarias ao redor; sobretudo entre aqueles que antes ocupavam o lugar de amizade e intimidade na vida do casal. Também chama atenção como essas reações, especialmente as de Charlie, caminham progressivamente para um estado mais exposto, cada vez mais digno de pena.
O desenrolar propositalmente desastroso do filme reforça essa sensação de colapso construído, em que cada escolha maximiza o desconforto e torna qualquer possibilidade de retorno cada vez mais distante. As cenas não se estendem até um ponto de conforto, elas são cortadas quando ainda carregam tensão. A trilha sonora, em cordas minimalista, mas esquecível, entra e desaparece sem assumir o controle emocional do filme, sendo a maioria das cenas sem trilha sonora alguma, o que curiosamente apenas beneficia a narrativa sem torná-la entediante.
O humor surge do desalinho. Um momento que sugere leveza se desloca por causa de uma música que falha ao ser desligada, de um detalhe que altera o sentido do que está sendo visto, da própria desconstrução da mesa de som no casamento, do estouro do áudio no momento mais propício, justamente quando o discurso de toca no tema da posse de armas de fogo. O riso aparece misturado ao estranhamento e ao desconforto, como se o filme recusasse qualquer reação estável de quem o assiste.
Ainda sobre o personagem de Pattinson, chama atenção o quanto ele se permite habitar um corpo vulnerável, diferente de seu papel anterior em The Batman. As pernas à mostra, na cena em que ele prova a roupa do casamento, contribuem para essa sensação de fragilidade exposta, enquanto ele experimenta também um par de sapatos de couro novíssimo, rígido e visivelmente desconfortável.
Esse detalhe reforça um estado de desconforto autoinduzido que o acompanha o tempo todo. Afinal, ele não se desfaz dos sapatos, não tenta ajustá-los, apenas insiste. Caminha com eles como se não tivesse escolha ou não se importasse. Só ao fim do casamento percebemos o furo na ponta da meia, com o dedão exposto – um detalhe que expõe, de forma irônica, seu desalinho.
Em algum momento, dá vontade de parar Charlie e pedir que ele respire, pois, cada uma de suas escolhas extrapola o problema original que ele tenta conter, como se não soubesse exatamente o que fazer com aquilo, mas seguisse mesmo assim. Chega a ser irritante o som do couro. É pra ser irritante. Vê-lo caminhar com ele, ignorando o fato, passa a definir a nossa experiência também. O desalinho deixa de ser circunstancial e passa a fazer parte da forma como ele ocupa aquele espaço, o que é mais inusitado. Pois, o desconforto maior não vem de Emma.
É fácil perceber o aspecto cômico desse movimento – e, repito, inusitado. Não era esperado que o personagem de Pattinson fosse perder completamente as estribeiras nesse filme. O que poderia permanecer restrito ao casal se espalha, envolve outras pessoas, contamina o espaço ao redor. E nisso existe uma progressão clara de comportamento, um acúmulo de erros que não encontra paz, só piora, só escala.
Falemos mais sobre Emma, que, depois de Charlie, está mais próxima de Madre Teresa de Calcutá. E como o papel cai bem a Zendaya, que se move em outra direção. A "loucura", no seu caso, ecoa quase toda pelo vômito. Perdi as contas de quantas vezes ela vomita nesse filme. Mas é isso, ela tenta se afastar do caos, do segredo que trouxe à tona durante a conversa entre pares. Ela se justifica, tem respaldo para neutralizar qualquer diagnóstico projetado sobre ela. Ainda assim, existem momentos em que essa contenção falha. Irrompe certa brutalidade, seja na brincadeira ao apontar a faca para Charlie, seja ao retirar a amiga do papel de madrinha principal e dispensar a DJ, supostamente viciada, do casamento.
O passado que Emma carrega altera o equilíbrio da relação com Charlie e amigos, mas suas ações no presente seguem um caminho mais estável que a de todos eles. Existe uma tentativa constante de reorganizar o que se desmancha, de manter algum tipo de continuidade mesmo quando o cenário aponta para ruptura a todo momento depois da "bronca". Essa diferença de postura se torna cada vez mais evidente conforme o filme avança. O peso das coisas se desloca aos demais personagens. Com excessão, talvez, de Mike, vivido por Mamoudou Athie, fazendo par com a personagem de Alana Haim, Rachel, de cuja prima ficou paraplégica num tiroteio escolar, e ela joga esse fato como um fardo para Emma carregar.
O que parecia central no início passa a dividir espaço com o que se constrói no presente. A relação deixa de ser definida por um único acontecimento e passa a ser moldada por uma sequência de decisões que se acumulam sem resolução. O discurso de Rachel, durante o casamento, se torna um dos momentos mais incômodos, pois ela alimenta uma nova implicância contra a amiga e contamina o ambiente da festa, seja pela zombaria, seja por uma falsa lisonja que soa como intimidação dirigida a Emma.
O que parecia central no início passa a dividir espaço com o que se constrói no presente. A relação deixa de ser definida por um único acontecimento e passa a ser moldada por uma sequência de decisões que se acumulam sem resolução. O discurso de Rachel, durante o casamento, se torna um dos momentos mais incômodos, pois ela alimenta uma nova implicância contra a amiga e contamina o ambiente da festa, seja pela zombaria, seja por uma falsa lisonja que soa como intimidação dirigida a Emma.
Todos agem como se Emma tivesse cometido o pior, e há algo de comovente nisso por soar injusto. Ainda assim, nada que Charlie não consiga piorar. Esse contraste entre o que Emma fez e o que deixou de fazer redefine o peso de sua história. O passado dela encontra um limite, enquanto o presente de Charlie não. Além de tudo isso, no fim, é ela quem se dispõe a perdoá-lo quando sugere recomeçar.
Desde o começo do filme, é Emma quem sugere uma nova abordagem. Na cafeteria, ela oferece uma nova chance para Charlie se apresentar do começo. Ela acredita em trégua, recomeço, perdão. E tenta emplacar esse mesmo processo durante o conflito maior. Isso aponta para outra forma de lidar com problemas. Há nela essa tentativa constante de reorganizar o que saiu do eixo, de não permitir que um único ponto determine todo o resto. Esse gesto carrega uma abertura emocional difícil de sustentar diante do que se acumula ao redor dela, enquanto a leitura alheia tenta enquadrá-la em diagnósticos rígidos que não dão conta dessa nuance.
O próprio livro que ela lê na cafeteria, ("The Damage"), funciona como um eco dessa discussão. O que exatamente constitui "o dano" em uma relação? Aquilo que ficou no passado ou aquilo que se produz no presente, em tempo real, diante dos nossos olhos?
Fica a dúvida sobre o que o filme espera de quem assiste. Se existe um convite à aceitação irrestrita ou se estamos diante de um experimento sobre os limites do afeto e do perdão. Se alguém pode sair desse filme falando em amor incondicional com alguma segurança. Porque, em algum momento, a pergunta deixa de ser sobre Emma e passa a ser sobre até onde alguém iria permanecendo ao lado de Charlie depois de tudo o que ele expõe, provoca e amplia.
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