PLURIBUS e a tendência de interpretar a colmeia com parâmetros humanos (Análise com Spoiler)

A primeira temporada de Pluribus chegou ao fim no episódio nove, deixando muita gente desnorteada, especialmente quem caiu no discurso sedutor do "amor da colmeia" e em seu senso de verdade inquestionável. Não foi um encerramento pensado para confortar, mas um inusitado que confronta o espectador com a própria dificuldade de interpretar a colmeia fora de parâmetros humanos. Porque uma coisa é acreditar no que ela diz; outra, bem diferente, é encarar o que a série passa a mostrar em seguida e o modo como escolhemos ler essas imagens. É quando Pluribus se revela mais cruel, sutil e mais inteligente do que aparenta.

A grande provocação da série, disponível na Apple TV+, talvez não esteja em confrontar o espectador com o mal, mas sim em deslocar o sentido de palavras como "amor" e "cuidado", até que elas deixem de significar o que sempre significaram para nós.


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O episódio final abre 71 dias após o "joining" (não sei como ficou a tradução em português), acompanhando Kusimayu, uma jovem peruana, cercada por pessoas da colmeia que dizem amá-la. Elas cozinham sua comida favorita, cantam em sua língua, a tratam com carinho. Tudo parece acolhedor e idílico. Mas esse afeto não é espontâneo. É performático. Uma encenação cuidadosamente calculada, visando apenas uma coisa.

O detalhe que denuncia tudo está no fato dos membros da colmeia falarem em voz alta entre si, na frente de Kusimayu. Mas sabemos, desde episódios anteriores, que a comunicação da colmeia é telepática, inconsciente e silenciosa. Quando estão entre si, agem como robozinhos... Aquela conversa com a menina, assim como todas as interações com Carol ao longo da série, é teatro. Uma interface emocional. Um "modo conforto" ativado para baixar o cortisol e elevar a oxitocina da vítima. Não é humanidade, mas design biológico. Zosia até faz as vezes de namorada de Carol, reconstruindo lugares físicos e mentais, a fim de convencê-la a se integrar a colmeia. E Carol quase perde as próprias forças nesse vai e vem, quase acredita no teatrinho de Zosia.

Kusimayu, no entanto, diferente de Carol, já pertence àquele sistema mesmo antes da transformação final. Acredito que o fator "familiaridade" construído em torno dela pesou a favor de sua escolha. É então que surge o bode, seu animal de estimação, um eco direto de uma cena anterior envolvendo Carol e um humano já convertido, ainda acompanhado de seu cachorro. É certo que a colmeia não fere animais, pois não consentem e, por isso, são deixados de lado. Aqui, no entanto, o bode deixa de ser apenas um animal e passa a ser dispositivo narrativo. A mensagem é clara: "olhe como preservamos o que você ama." 

Zosia afirma a Carol que os animais que se recusam a ir embora permanecem sob os cuidados de seus antigos donos. Em contrapartida, a série nos mostra o oposto disso. E, na vez de Carol, um cachorro solitário, carregando um calçado e se aproximando dela, talvez em busca de alguém, talvez esperando uma resposta ou ajuda dela ao largar o objeto aos seus pés. 


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Falei num vídeo que tudo o que aparece em cena numa série ou filme tende a ser proposital e a cumprir função dentro da narrativa, ainda que essa função só se revele mais tarde, ou de maneira indireta. Sabendo disso, Zosia fala uma coisa para Carol (que também é o espectador), mas, posteriormente, a série mostra outra coisa (cabendo ao público interpretar ou acreditar cegamente no discurso). 

Digo isso, pois, a série é tão boa em ludibriar o espectador, que chegou a me fazer criar uma memória falsa sobre esse cuidado implícito no diálogo de Zosia – algo que, até onde me lembro, nunca foi efetivamente mostrado em nenhum episódio. O que vemos, além de um cachorro solitário aos pés de Carol e distante de qualquer cuidado do antigo dono, é o bode abandonado ao fim do arco de Kusimayu, servindo justamente para evidenciar que tipo de cuidado a colmeia reserva aos pets apegados a seus donos.

O ritual de conversão de Kusimayu não é violento no sentido clássico, pois não há luta. Não há engano explícito. Ela consente. E isso torna tudo ainda mais insuportável. A colmeia não mente para ela. Dentro da lógica deles, não há crueldade ali. Há libertação e "elevação"; tornar-se parte de uma consciência maior, mais plena e feliz... O problema é o que acontece depois. Quando o ritual termina, o canto cessa. O calor humano encenado evapora. O silêncio toma conta. A benevolência revela sua natureza utilitária. E então vem a cena que redefine toda a série: Kusimayu abre o cercado, o bode corre em sua direção, desesperado, chamando por ela. E ela simplesmente vai embora. Não olha para trás. Não reage. Não reconhece aquele vínculo.

É aqui que Pluribus entrega sua chave de leitura definitiva. A colmeia diz preservar memórias. Diz que ninguém é apagado, apenas somado. Mas o bode prova a mentira por omissão. O que é preservado não é o afeto, é o dado. Kusimayu lembra do bode. Ela apenas não se importa mais. Apego, vínculo, dor, tudo isso é descartável uma vez que ela se torna todo mundo, por assim dizer. O que sobra não é a pessoa/individuo, é o arquivo na vastidão. Se Kusimayu pode abandonar seu animal sem hesitar, o que realmente resta de Helen dentro de Zosia? O amor que Carol sente é real, mas ele está ancorado em uma simulação cuidadosamente calibrada. A mesma "rotina de conforto" que vimos no Peru.


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A série então aprofunda o embate ideológico com a chegada de Manousos, talvez o personagem mais explicitamente humano da série. Paranoico, desconfiado, obsessivo, mas coerente. Ele enxerga a colmeia como algo que deixou de ser humano. Carol resiste a essa ideia. Para ela, eles são apenas diferentes. Bons até demais. Incapazes de matar uma formiga. Mas Manousos expõe o paradoxo central: "um igualitarismo radical onde tudo tem o mesmo valor acaba esvaziando qualquer valor real." E parece ter um plano para salvar o mundo duas vezes melhor que o de Carol. 

Manousos coleciona num caderno frequências de rádio capazes de causar reações adversas na colmeia. Acredito que seja a primeira vez que ele testa separar o ser possuidor de corpos da vítima e, por isso, o seu plano é melhor, mais inteligente, que qualquer bomba; seja esta bomba metafórica ou não, o que a série ainda não mostrou.

A série usa o espaço e os objetos para reforçar seus temas nesse momento. Os cartazes de mágicos na casa onde Carol hospeda Manousos, por exemplo; a iconografia do "tudo vejo", o livro The Story of Art, com sua famosa frase sobre não existir arte, apenas artistas, uma vez que a colmeia inverte isso, apagando os artistas e preservando apenas a obra... O resultado é um mundo funcional, harmonioso e absolutamente desprovido de singularidade. 

Quando Carol descobre que seus óvulos congelados estão sendo usados para contornar seu consentimento, Pluribus atinge seu ponto mais desconfortável. A colmeia não viola sua regra fundamental, de não causar dor. Mas ignora completamente a ideia de autonomia. Consentimento não importa se não há sofrimento físico envolvido. É um legalismo biológico frio, sutilmente monstruoso. Embora o "amor" da colmeia não seja falso, esse é o verdadeiro golpe da série. E onde muitas pessoas podem se deixar enganar, inclusive eu ao acreditar que eles cuidam dos pets apegados da mesma forma que um ser humano não convertido cuidaria

Quando a colmeia "cuida" dos animais, isso é verdadeiro dentro do enquadramento ético dela. Os pets não são feridos ou exterminados. Eles continuam vivos. Do ponto de vista da colmeia, isso é cuidado suficiente. E, mais importante, é cuidado coerente com suas regras. O problema não está na mentira, pois eles não mentem e a série faz questão de martelar isso o tempo todo. O problema está na nossa definição de "cuidado", em como interpretamos isso antes mesmo de ligarmos os pontos. 

Ou talvez essa seja apenas mais uma entre tantas outras formas de interpretar a primeira temporada.












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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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