PLURIBUS: O fim da 1ª temporada e o risco de interpretar a colmeia com parâmetros humanos (Análise com Spoiler)
A primeira temporada de Pluribus chegou ao fim no episódio nove, deixando muita gente desnorteada, especialmente quem caiu no discurso sedutor do "amor da colmeia" e em seu senso de verdade inquestionável. Não foi um encerramento pensado para confortar. Mas um inusitado, que confronta o espectador com a própria dificuldade de interpretar a colmeia fora de parâmetros humanos. Porque uma coisa é acreditar no que ela diz; outra, bem diferente, é encarar o que a série passa a mostrar em seguida e o modo como escolhemos ler essas imagens. É justamente aí que Pluribus se revela mais cruel, mais sutil e mais inteligente do que aparenta.
A grande provocação da série, disponível na Apple TV+, talvez não esteja em confrontar o espectador com o mal, mas sim em deslocar o sentido de palavras como amor, cuidado e escolha até que elas deixem de significar o que sempre significaram para nós.
• PLURIBUS e o preço da autenticidade em um mundo contaminado pelo vírus da paz (Comentário com Spoiler)
O episódio final abre 71 dias após o "joining" (não sei como ficou a tradução em português), acompanhando Kusimayu, uma jovem peruana, cercada por pessoas da colmeia que dizem amá-la. Elas cozinham sua comida favorita, cantam em sua língua, a tratam com carinho. Tudo parece acolhedor, quase idílico. Mas esse afeto não é espontâneo. É performático. É uma encenação cuidadosamente calculada, visando apenas uma coisa.
O ritual de conversão de Kusimayu não é violento no sentido clássico, pois não há luta. Não há engano explícito. Ela consente. E isso torna tudo ainda mais insuportável. A colmeia não mente para ela. Dentro da lógica deles, não há crueldade ali. Há libertação e "elevação". Tornar-se parte de uma consciência maior, mais plena e feliz. O problema é o que acontece depois. Quando o ritual termina, o canto cessa. O calor humano encenado evapora. O silêncio toma conta. A benevolência revela sua natureza utilitária. E então vem a cena que redefine toda a série: Kusimayu abre o cercado, o bode corre em sua direção, desesperado, chamando por ela. E ela simplesmente vai embora. Não olha para trás. Não reage. Não reconhece aquele vínculo.
É aqui que Pluribus entrega sua chave de leitura definitiva. A colmeia diz preservar memórias. Diz que ninguém é apagado, apenas somado. Mas o bode prova a mentira por omissão: o que é preservado não é o afeto, é o dado. Kusimayu lembra do bode. Ela apenas não se importa mais. Apego, vínculo, dor, tudo isso é descartável uma vez que ela se torna todo mundo, por assim dizer. O que sobra não é a pessoa/individuo, é o arquivo na vastidão... Se Kusimayu pode abandonar seu animal sem hesitar, o que realmente resta de Helen dentro de Zosia? O amor que Carol sente é real, mas ele está ancorado em uma simulação cuidadosamente calibrada. A mesma "rotina de conforto" que vimos no Peru.
A série então aprofunda o embate ideológico com a chegada de Manousos, talvez o personagem mais explicitamente humano da série. Paranoico, desconfiado, obsessivo, mas coerente. Ele enxerga a colmeia como algo que deixou de ser humano. Carol resiste a essa ideia. Para ela, eles são apenas diferentes. Bons até demais. Incapazes de matar uma formiga. Mas Manousos expõe o paradoxo central: "um igualitarismo radical onde tudo tem o mesmo valor acaba esvaziando qualquer valor real.". E parece ter um plano para salvar o mundo duas vezes melhor que o de Carol. Manousos coleciona num caderno frequências de rádio capazes de causar reações adversas na colmeia. Acredito que seja a primeira vez que ele testa separar o ser possuidor de corpos da vítima e, por isso, o seu plano é melhor, mais inteligente, que qualquer bomba atômica; seja esta bomba metafórica ou não, o que a série ainda não mostrou.
• Sophie Turner é Lara Croft na Nova Série Original Tomb Raider do Prime Video: Estamos tão de volta!
O episódio final abre 71 dias após o "joining" (não sei como ficou a tradução em português), acompanhando Kusimayu, uma jovem peruana, cercada por pessoas da colmeia que dizem amá-la. Elas cozinham sua comida favorita, cantam em sua língua, a tratam com carinho. Tudo parece acolhedor, quase idílico. Mas esse afeto não é espontâneo. É performático. É uma encenação cuidadosamente calculada, visando apenas uma coisa.
O detalhe que denuncia tudo é simples: os membros da colmeia falam em voz alta entre si, na frente de Kusimayu. Mas sabemos, desde episódios anteriores, que a comunicação da colmeia é telepática, inconsciente, silenciosa. Quando estão entre si, agem como robozinhos, sem dialogar... Aquela conversa com a menina, assim como todas as interações com Carol ao longo da série, é teatro. Uma interface emocional. Um "modo conforto" ativado para baixar o cortisol e elevar a oxitocina da vítima. Não é humanidade, mas design biológico. Zosia até faz as vezes de namorada de Carol, reconstruindo lugares físicos e mentais a fim de convencê-la a se integrar a colmeia. E a Carol quase perde as próprias forças nesse vai e vem, quase acredita no teatrinho de Zosia.
Kusimayu, no entanto, diferente de Carol, já pertence àquele sistema mesmo antes da transformação final. Acredito que o fator "familiaridade" construído em torno dela pesou a favor de sua escolha. É então que surge o bode, seu animal de estimação, um eco direto de uma cena anterior envolvendo Carol e um humano já "convertido", ainda acompanhado de seu cachorro. A colmeia não fere animais. Eles não consentem e, por isso, são deixados de lado. Aqui, porém, o bode deixa de ser apenas um animal qualquer e passa a ser um dispositivo narrativo. A mensagem é clara: "olhe como preservamos o que você ama.". Zosia afirma a Carol que os animais que se recusam a ir embora permanecem sob os cuidados de seus antigos donos. Em contrapartida, a série nos mostra o oposto disso. E, na vez de Carol, um cachorro solitário, carregando um calçado e se aproximando dela, talvez em busca de alguém, talvez esperando uma resposta ou ajuda dela ao largar o objeto aos seus pés.
Kusimayu, no entanto, diferente de Carol, já pertence àquele sistema mesmo antes da transformação final. Acredito que o fator "familiaridade" construído em torno dela pesou a favor de sua escolha. É então que surge o bode, seu animal de estimação, um eco direto de uma cena anterior envolvendo Carol e um humano já "convertido", ainda acompanhado de seu cachorro. A colmeia não fere animais. Eles não consentem e, por isso, são deixados de lado. Aqui, porém, o bode deixa de ser apenas um animal qualquer e passa a ser um dispositivo narrativo. A mensagem é clara: "olhe como preservamos o que você ama.". Zosia afirma a Carol que os animais que se recusam a ir embora permanecem sob os cuidados de seus antigos donos. Em contrapartida, a série nos mostra o oposto disso. E, na vez de Carol, um cachorro solitário, carregando um calçado e se aproximando dela, talvez em busca de alguém, talvez esperando uma resposta ou ajuda dela ao largar o objeto aos seus pés.
Falei num vídeo que tudo que aparece em cena numa série ou filme tende a ser proposital e a cumprir função dentro da narrativa, ainda que essa função só se revele mais tarde, ou de maneira indireta. Sabendo disso, Zosia fala uma coisa para Carol (que também é o espectador), mas, posteriormente, a série mostra outra coisa (cabendo ao público interpretar ou acreditar cegamente no discurso). Digo isso, pois, a série é tão boa em ludibriar o espectador que chegou a me fazer criar uma memória falsa sobre esse cuidado implícito no diálogo de Zosia, algo que, até onde me lembro, nunca foi efetivamente mostrado em nenhum episódio. O que vemos, no entanto, além de um cachorro solitário aos pés de Carol e distante de qualquer "cuidado" do antigo dono, é o bode abandonado ao fim do arco de Kusimayu, servindo justamente para evidenciar que tipo de cuidado a colmeia reserva aos pets apegados a seus donos.
O ritual de conversão de Kusimayu não é violento no sentido clássico, pois não há luta. Não há engano explícito. Ela consente. E isso torna tudo ainda mais insuportável. A colmeia não mente para ela. Dentro da lógica deles, não há crueldade ali. Há libertação e "elevação". Tornar-se parte de uma consciência maior, mais plena e feliz. O problema é o que acontece depois. Quando o ritual termina, o canto cessa. O calor humano encenado evapora. O silêncio toma conta. A benevolência revela sua natureza utilitária. E então vem a cena que redefine toda a série: Kusimayu abre o cercado, o bode corre em sua direção, desesperado, chamando por ela. E ela simplesmente vai embora. Não olha para trás. Não reage. Não reconhece aquele vínculo.
É aqui que Pluribus entrega sua chave de leitura definitiva. A colmeia diz preservar memórias. Diz que ninguém é apagado, apenas somado. Mas o bode prova a mentira por omissão: o que é preservado não é o afeto, é o dado. Kusimayu lembra do bode. Ela apenas não se importa mais. Apego, vínculo, dor, tudo isso é descartável uma vez que ela se torna todo mundo, por assim dizer. O que sobra não é a pessoa/individuo, é o arquivo na vastidão... Se Kusimayu pode abandonar seu animal sem hesitar, o que realmente resta de Helen dentro de Zosia? O amor que Carol sente é real, mas ele está ancorado em uma simulação cuidadosamente calibrada. A mesma "rotina de conforto" que vimos no Peru.
| Apple TV+ |
A série então aprofunda o embate ideológico com a chegada de Manousos, talvez o personagem mais explicitamente humano da série. Paranoico, desconfiado, obsessivo, mas coerente. Ele enxerga a colmeia como algo que deixou de ser humano. Carol resiste a essa ideia. Para ela, eles são apenas diferentes. Bons até demais. Incapazes de matar uma formiga. Mas Manousos expõe o paradoxo central: "um igualitarismo radical onde tudo tem o mesmo valor acaba esvaziando qualquer valor real.". E parece ter um plano para salvar o mundo duas vezes melhor que o de Carol. Manousos coleciona num caderno frequências de rádio capazes de causar reações adversas na colmeia. Acredito que seja a primeira vez que ele testa separar o ser possuidor de corpos da vítima e, por isso, o seu plano é melhor, mais inteligente, que qualquer bomba atômica; seja esta bomba metafórica ou não, o que a série ainda não mostrou.
O roteiro é brilhante ao usar o espaço e os objetos para reforçar seus temas. Os cartazes de mágicos na casa onde Carol hospeda Manousos, por exemplo; a iconografia do "tudo vejo", o livro The Story of Art, com sua famosa frase sobre não existir arte, apenas artistas, uma vez que a colmeia inverte isso, apagando os artistas e preservando apenas a obra. O resultado é um mundo funcional, harmonioso e absolutamente desprovido de singularidade. Quando Carol descobre que seus óvulos congelados estão sendo usados para contornar seu consentimento, Pluribus atinge seu ponto mais assustador. A colmeia não viola sua regra fundamental: não causar dor. Mas ignora completamente a ideia de autonomia. Consentimento não importa se não há sofrimento físico envolvido. É um legalismo biológico frio, sutilmente monstruoso.
Embora o "amor" da colmeia não seja falso, esse é o verdadeiro golpe da série, e onde muitas pessoas podem se deixar enganar, inclusive eu ao acreditar que eles cuidam dos pets apegados da mesma forma que um ser humano não convertido cuidaria. Quando ela "cuida" dos animais, isso é verdadeiro dentro do enquadramento ético dela. Os pets não são feridos ou exterminados. Eles continuam vivos. Do ponto de vista da colmeia, isso é cuidado suficiente. E, mais importante, é cuidado coerente com suas regras. O problema não está na mentira, pois eles não mentem e a série faz questão de martelar isso o tempo todo. O problema está na nossa definição de cuidado, em como interpretamos isso antes mesmo de ligarmos os pontos.
Embora o "amor" da colmeia não seja falso, esse é o verdadeiro golpe da série, e onde muitas pessoas podem se deixar enganar, inclusive eu ao acreditar que eles cuidam dos pets apegados da mesma forma que um ser humano não convertido cuidaria. Quando ela "cuida" dos animais, isso é verdadeiro dentro do enquadramento ético dela. Os pets não são feridos ou exterminados. Eles continuam vivos. Do ponto de vista da colmeia, isso é cuidado suficiente. E, mais importante, é cuidado coerente com suas regras. O problema não está na mentira, pois eles não mentem e a série faz questão de martelar isso o tempo todo. O problema está na nossa definição de cuidado, em como interpretamos isso antes mesmo de ligarmos os pontos.
Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
Leia mais de Francisco
Leia mais de Francisco
Nenhum comentário: