Pânico 7 Existe Sem Transcender Sua Fórmula – O Que Faltou?
A modesta sala 4 do Cinemark Shopping Iguatemi estava cheia para assistir ao sétimo capítulo da saga Pânico. É uma sala menor, com a tela posicionada mais alta, o que compromete a experiência de quem se acomoda nas primeiras fileiras. Entre os presentes, reconheci alguns colegas da imprensa, que também comentaram o desconforto do espaço. Eu estava na segunda fileira e, quando surgiu a possibilidade de exibir o filme mutualmente em outra sala, optei por acompanhar a mudança, como forma de assistir à sessão em uma condição mais adequada.
Já noutra sala, em um assento mais adequado, entro no filme quase como quem não carrega memória afetiva recente dos capítulos anteriores. Confesso que nunca fui frequentador assíduo da franquia nos tempos das locadoras físicas. Ainda assim, sempre reconheci em Pânico algo que o diferenciava de outros títulos do gênero: a capacidade de rir de si mesmo, especialmente por sua autorreferência e metalinguagem. Essa camada sempre me pareceu mais interessante do que os sustos e a violência gráfica em si. Além disso, enquanto a projeção avança, me pergunto se este novo capítulo se sustenta pelo que constrói agora ou apenas pela nostalgia pretendida mais uma vez.
Percebo, desde sua abertura, que a nostalgia aqui não tem frescor nem qualquer sensação de descoberta válida. Ela não surpreende, não desloca, não provoca o mesmo entusiasmo de reencontro visto em filmes anteriores. É consciente demais de si mesma, e isso me impede de embarcar completamente. O filme sabe que está evocando o passado e, em certo momento, até verbaliza isso por meio de uma personagem, como quem admite o truque antes que alguém aponte. Mas reconhecer o mecanismo já não basta a essa altura. Não é preciso se reinventar tampouco em todas as frentes. Mas aqui o filme indica também certa dificuldade no roteiro para tanto, permanecendo então num lugar comum, já conhecido, porém de menor frescor narrativo e um tanto cansado de si mesmo. A evocação existe, é evidente e organizada, mas soa calculada e protocolar.
O senso metalinguístico, que sempre foi o diferencial da franquia, desta vez não flui com naturalidade. Me pergunto o que há de realmente meta aqui. Existe autorreferência, sim: fãs obcecados pelas vítimas do original, reconstruções de cenas como homenagem ao filme dentro do filme, "Stab", já incorporado à mitologia desse universo... Ainda assim, em vários momentos, parece repetição pela repetição, quase um gesto automático. Mesmo quando tenta fugir do previsível, o roteiro oscila entre recorrer ao que já conhecemos ou contrariar expectativas de maneira tão calculada que a surpresa perde força. O que não é previsível, e preciso reconhecer, é a revelação final, que para mim funciona como uma boa surpresa. Não porque o filme construa um jogo particularmente engenhoso, mas porque simplesmente não há pistas suficientes para antecipar, com segurança, quem está por trás da máscara. O que há é apenas uma trapaça narrativa.

Paramount Pictures / Divulgação
A filha adolescente de Sidney, Tatum (na ponta à direita), vivida por Isabela May, não quer mais ser percebida como tímida ou insegura, quer se aproximar da imagem que construiu da mãe. Quer ser firme, decidida, capaz de reagir. E nisso encontro algo interessante, o espelhamento geracional. Uma jovem que cresce sob a sombra de uma "final girl" e que, de certo modo, aspira a ocupar esse lugar. O trauma da mãe vira referência. A sobrevivência vira identidade.
A atriz voltou depois de uma disputa salarial com os produtores, e parece que parte do investimento emocional e até estrutural do filme foi direcionado a esse retorno, como se a própria presença dela fosse suficiente para sustentar o capítulo. E tudo bem. Há presença e entrega dramática considerável. Mas, ainda assim, a sensação é de desperdício (narrativo e criativo).
Já noutra sala, em um assento mais adequado, entro no filme quase como quem não carrega memória afetiva recente dos capítulos anteriores. Confesso que nunca fui frequentador assíduo da franquia nos tempos das locadoras físicas. Ainda assim, sempre reconheci em Pânico algo que o diferenciava de outros títulos do gênero: a capacidade de rir de si mesmo, especialmente por sua autorreferência e metalinguagem. Essa camada sempre me pareceu mais interessante do que os sustos e a violência gráfica em si. Além disso, enquanto a projeção avança, me pergunto se este novo capítulo se sustenta pelo que constrói agora ou apenas pela nostalgia pretendida mais uma vez.
| Paramount Pictures / Divulgação |
Percebo, desde sua abertura, que a nostalgia aqui não tem frescor nem qualquer sensação de descoberta válida. Ela não surpreende, não desloca, não provoca o mesmo entusiasmo de reencontro visto em filmes anteriores. É consciente demais de si mesma, e isso me impede de embarcar completamente. O filme sabe que está evocando o passado e, em certo momento, até verbaliza isso por meio de uma personagem, como quem admite o truque antes que alguém aponte. Mas reconhecer o mecanismo já não basta a essa altura. Não é preciso se reinventar tampouco em todas as frentes. Mas aqui o filme indica também certa dificuldade no roteiro para tanto, permanecendo então num lugar comum, já conhecido, porém de menor frescor narrativo e um tanto cansado de si mesmo. A evocação existe, é evidente e organizada, mas soa calculada e protocolar.
O senso metalinguístico, que sempre foi o diferencial da franquia, desta vez não flui com naturalidade. Me pergunto o que há de realmente meta aqui. Existe autorreferência, sim: fãs obcecados pelas vítimas do original, reconstruções de cenas como homenagem ao filme dentro do filme, "Stab", já incorporado à mitologia desse universo... Ainda assim, em vários momentos, parece repetição pela repetição, quase um gesto automático. Mesmo quando tenta fugir do previsível, o roteiro oscila entre recorrer ao que já conhecemos ou contrariar expectativas de maneira tão calculada que a surpresa perde força. O que não é previsível, e preciso reconhecer, é a revelação final, que para mim funciona como uma boa surpresa. Não porque o filme construa um jogo particularmente engenhoso, mas porque simplesmente não há pistas suficientes para antecipar, com segurança, quem está por trás da máscara. O que há é apenas uma trapaça narrativa.
O terror aqui deixa de ser apenas jogo e passa a ser vigilância constante. Perseguição. Obsessão instalada no cotidiano. A vida doméstica de Sidney Prescott, novamente vivida por Neve Campbell, é atravessada por protocolos de segurança que já não parecem exagero, mas rotina. Ela é mãe, casada com um policial, e transformou a própria casa em um sistema de defesa. Portas reforçadas, códigos numéricos, fechaduras digitais, rotas de emergência. A segurança começa no casamento, passa pela arquitetura e termina na maneira como ela observa cada ruído. A personagem poderia facilmente ser interpretada como paranoica, como alguém que não superou o passado. Mas o filme não a ridiculariza por isso. Depois de tudo que enfrentou, seu cuidado parece coerente, quase inevitável. Ela não é uma mulher dominada pelo medo, mas alguém que aprendeu a viver com ele. Existe uma diferença importante entre paranoia e preparação. O roteiro, ao menos nisso, é respeitoso com sua trajetória.
Paramount Pictures / Divulgação
A filha adolescente de Sidney, Tatum (na ponta à direita), vivida por Isabela May, não quer mais ser percebida como tímida ou insegura, quer se aproximar da imagem que construiu da mãe. Quer ser firme, decidida, capaz de reagir. E nisso encontro algo interessante, o espelhamento geracional. Uma jovem que cresce sob a sombra de uma "final girl" e que, de certo modo, aspira a ocupar esse lugar. O trauma da mãe vira referência. A sobrevivência vira identidade.
Poderia haver mais conflito, mais tensão entre proteção e autonomia, mas a ideia está posta. É nesse cenário que surge o chamado quarto do pânico. E a ironia é evidente. Pois, dentro da franquia, um espaço assim poderia carregar peso simbólico. Poderia ser a materialização de décadas de perseguição. Mas o que vemos se aproxima mais de um esconderijo improvisado atrás das paredes do que de uma estrutura realmente pensada para resistir a uma invasão. Falta imponência. Falta estratégia clara. Falta a sensação de que Sidney levou sua experiência ao limite da prevenção.
Um quarto do pânico, no sentido pleno, pressupõe planejamento, investimento, quase obsessão arquitetônica. Poderia ter sido o grande momento do filme, elevando a sobrevivência a um gesto quase heroico, não no sentido de espetáculo, mas de consequência narrativa. Em vez disso, a solução encontrada parece frágil demais para alguém que enfrentou assassinos mascarados por décadas. A ideia é boa. A execução, nem tanto.
Um quarto do pânico, no sentido pleno, pressupõe planejamento, investimento, quase obsessão arquitetônica. Poderia ter sido o grande momento do filme, elevando a sobrevivência a um gesto quase heroico, não no sentido de espetáculo, mas de consequência narrativa. Em vez disso, a solução encontrada parece frágil demais para alguém que enfrentou assassinos mascarados por décadas. A ideia é boa. A execução, nem tanto.
Em alguns momentos, me peguei imaginando outra construção possível. Não algo exagerado ou fantasioso pelo trocadilho com o título nacional, mas mais alinhado com tudo que a personagem viveu. Uma Sidney mais preparada para reagir. Não como glorificação da violência, mas como coerência dramática e de escopo expressivamente condizente a nossa expectativa. Depois de tantos confrontos, esconder-se atrás de uma parede oca de drywall ainda soa como insuficiência.
Entre os retornos, há também a presença da jornalista Gale Weathers, novamente interpretada por Courteney Cox. Diferente de Sidney, que transforma o trauma em protocolo e estratégia, Gale carrega as marcas de maneira mais visível, quase física. Há sinais claros de um transtorno pós-traumático que atravessa sua rotina no modo como reage, na fragilidade que tenta esconder, no uso de medicamentos que sugerem uma tentativa constante de estabilizar o que ainda não cicatrizou por dentro...
Sua introdução neste capítulo tem seu impacto, o que devolve à narrativa uma energia familiar e ao mesmo tempo tensa, como se sua simples presença já carregasse memória e conflito. Ao mesmo tempo, Gale mantém aquele traço de arrogância latente, uma autoconfiança que beira a defensiva. É uma postura que sempre fez parte da personagem, mas que aqui, em certos momentos, cria uma barreira emocional que nos distancia dela. Parece haver a intenção de tensionar essa armadura, ainda que sob o viés do humor característico da personagem, mostrar que por trás da postura firme existe fragilidade, mas isso também é trabalhado de maneira vaga a cumprir tabela.
Já os jornalistas investigativos vividos por Mason Gooding e Jasmin Savoy Brown, que acompanham Gale, e que tiveram uma introdução vibrante e cheia de personalidade em Pânico 5, aqui parecem subaproveitados. Se antes havia frescor, humor afiado e consciência metalinguística aflorada, agora eles orbitam a trama sem o mesmo brilho. É como se o filme soubesse da importância deles, mas não encontrasse espaço real para desenvolvê-los. E, mais uma vez, a sensação que fica é a de potencial desperdiçado: ideias boas, personagens fortes, mas conduzidos com certa preguiça narrativa.
Já os jornalistas investigativos vividos por Mason Gooding e Jasmin Savoy Brown, que acompanham Gale, e que tiveram uma introdução vibrante e cheia de personalidade em Pânico 5, aqui parecem subaproveitados. Se antes havia frescor, humor afiado e consciência metalinguística aflorada, agora eles orbitam a trama sem o mesmo brilho. É como se o filme soubesse da importância deles, mas não encontrasse espaço real para desenvolvê-los. E, mais uma vez, a sensação que fica é a de potencial desperdiçado: ideias boas, personagens fortes, mas conduzidos com certa preguiça narrativa.
Não há confirmação oficial de que Pânico 7 seja o último capítulo da franquia em definitivo, pois, pelo cansaço, me pergunto também sobre isso. Por que continuar? Haverá demanda depois disso? O estúdio não anunciou encerramento, e sabemos como essas portas raramente se fecham de vez, sendo difícil imaginar uma despedida formal enquanto houver público e bilheteria. Ainda assim, há algo neste filme que soa como possível conclusão. Talvez não no plano industrial, mas no dramático. Ele pode muito bem encerrar por aqui, e não se fala mais nisso.
No entanto, ao abordar o outro lado da história e mostrar a vida de uma personagem que esteve afastada por anos, o roteiro abre um novo recorte e desperta curiosidade sobre o que aconteceu nesse intervalo. Esse movimento pode soar como encerramento, mas também como uma nova investida, uma tentativa de redirecionar a franquia, passar o manto ou, enfim.
Resta saber se estamos diante de um ponto final digno ou apenas do preparo para mais um capítulo, o que também sequer é sugerido. Se este for realmente o fim, ele encerra a saga num tom doméstico, quase contido, mais voltado para a proteção da família do que para o espetáculo do confronto. Se não for, ainda existe espaço para explorar esse universo, pois a base sempre existirá. A pergunta é se a franquia quer avançar ou se está confortável apenas em sobreviver.
* * *
Nota Crítica:
Sei lá, sabe...
O filme existe.
Por que, exatamente, fizeram este capítulo? Talvez para provar que podiam? Talvez porque dava? Talvez porque alguém abriu uma planilha e ela sorriu de volta? Talvez a resposta não mude absolutamente nada na experiência de assistir ao filme. Ele já está pronto, lançado, consumido, defendido e atacado. Quando eu começo a questionar por que um filme foi feito, talvez seja porque ele próprio não conseguiu me convencer de que precisava existir.
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