PLURIBUS e o preço da autenticidade em um mundo contaminado pelo vírus da paz (Comentário com Spoiler)

Terminei o terceiro episódio de Pluribus com uma satisfatória sensação de identificação. Porque, assim como Carol (essa mulher emocionalmente esfolada, que anda pelo mundo como quem pisa em cascalho), acredito que o meu temperamento diante do injusto também derreteria muita gente por aí. Não por bravata. Por fricção mesmo. Por inadequação ao consenso higienizado que muitos chamam de "paz" ou "felicidade", como se fosse virtude... quando, na verdade, trata-se apenas de uma versão plástica e artificial desses sentimentos.

E que roteiro! Vince Gilligan (criador de Breaking Bad) sempre teve uma queda por personagens que sangram por dentro, mas aqui ele parece particularmente interessado em expor a ferida: Carol (Rhea Seehorn) é uma autora que despreza o próprio trabalho, cercada por um mundo que funciona numa lógica de gesso emocional, onde todo mundo é "bom demais". E isso, claro, é o presságio perfeito para o horror.





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O vírus da paz chega e, como ironia mórbida, transforma a humanidade em criaturas harmoniosas, colaborativas, sorridentes. Monstrinhos zen. É quase engraçado perceber o quanto isso me soa familiar. Um paralelo com a nossa realidade talvez seriam aqueles sempre prontos pra dizer que você está reativo, defensivo, agressivo, quando na verdade só está… vivendo e sentindo como uma pessoa saudável e normal faria. Não à toa, meu apreço por essa doutrina é, digamos, bastante pouco quisto.

Carol, imune ao contágio até o momento, reage com a honestidade que ninguém mais parece capaz de sustentar. E eu entendo. Porque quando o mundo inteiro decide ser "agradável", a autenticidade vira crime. Você passa a existir na contramão. Um Han Solo num planeta de Ursinhos Carinhosos mutantes. E Pluribus captura isso com uma precisão desconfortável, essa felicidade imutável. Gilligan filma o colapso da humanidade como se filmaria uma propaganda de margarina, ao mesmo que transforma o banal em épico. A simples assinatura de livros num evento literário: exaustiva. A tentativa de falar com alguém que insiste em não atender o telefone: desgastante. E a logística de um supermercado vazio que, de repente, ressuscita para servir aos caprichos da protagonista; é como a série transmite os sentimentos de Carol.






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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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4 comentários:

  1. Quem diria mais uma ficção científica foda!!

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  2. O peido que foi o quarto episódio. Carol sai do ponto A pro ponto B sem resolver nada. Daí temos que esperar mais uma semana pro próximo ep

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    1. pra lembrar dos bons tempos das séries semanais essa frustração

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    2. Foi meio que um filler episode msm 😭

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