O lobisomem de Robert Eggers pode ser o mais fiel ao folclore medieval já visto no cinema [+18]

Robert Eggers tem um histórico e tanto com o sobrenatural. Em A Bruxa, a bruxa existe, mas durante boa parte do filme ela é apenas uma suspeita, uma presença sentida através do medo, da religião e da paranoia. Em O Farol, o espectador permanece preso à dúvida entre o fantástico e a loucura. Até mesmo em Nosferatu, seu último lançamento, embora o monstro seja real, Eggers prolonga o mistério através de sombras, relatos e presságios antes de revelá-lo completamente. 

Seguindo essa lógica, o fato do primeiro teaser de Werwulf não mostrar a criatura pode ser menos uma estratégia de marketing e mais um reflexo da própria estrutura do filme vindouro. Talvez estejamos diante de uma história de origem, como acontece em boa parte da filmografia de Eggers, em que a pergunta mais intrigante não é quando veremos o lobisomem, mas qual criatura o diretor decidiu esconder.





Gravura do final do século XVI associada ao caso de Peter Stumpp

O aspecto mais interessante do folclore dos lobisomens é que, historicamente, ele nunca foi apenas sobre homens se transformando em lobos. Assim como as bruxas perseguidas pela Europa medieval e moderna eram frequentemente pessoas reais interpretadas através do medo religioso da época, os supostos lobisomens também ocupavam uma zona nebulosa entre superstição, criminalidade, doença mental e histeria coletiva, em um período em que a ciência ainda não oferecia respostas para muitos fenômenos.

Foi exatamente esse tipo de material histórico que fascinou Eggers em A Bruxa. O diretor pesquisou extensivamente não só a língua usada naquela época como também relatos, documentos religiosos e textos demonológicos para construir sua narrativa. Elementos que hoje parecem absurdo, como acusações envolvendo unguentos/óleos feitos de bebês ou vassouras utilizadas para voar, não foram inventados pelo filme. Eles surgem da literatura demonológica europeia e dos interrogatórios realizados durante perseguições às bruxas. 

Nos textos como o Malleus Maleficarum (que deixo linkado no fim) e em processos judiciais, esses "unguentos" eram associados a capacidade de voo ou deslocamento mágico para encontros noturnos (o chamado "sabá"). Quem assistiu a A Bruxa e se perguntou por que a personagem voa após aplicar uma substância incomum no corpo encontra aí a resposta. Eggers transformou em imagem cinematográfica um dos mitos mais persistentes da demonologia europeia – uma crença que alimentou perseguições e contribuiu para condenar inúmeras pessoas acusadas de bruxaria.



Imagem: Divulgação / Lobis-Homem.

O mais perturbador é que essas histórias não nasceram da fantasia popular. Muitas vezes surgiram sob tortura, quando mulheres marginalizadas eram pressionadas a confessar aquilo que inquisidores já desejavam ouvir. Talvez Eggers encontre nos lobisomens um terreno semelhante

Entre os séculos XV e XVII, diversos julgamentos de *licantropia ocorreram na Europa. Um dos casos mais difundidos é o de Peter Stumpp, agricultor alemão acusado de assassinatos, canibalismo e de possuir um cinturão mágico capaz de transformá-lo em lobo. Sob tortura, confessou uma série de crimes, o que levou à condenação não apenas dele, mas também de membros de sua família. – Também deixo linkado no fim um artigo em inglês, com gravuras da época, relacionado ao caso.

Mas a questão permanece: Stumpp era realmente um assassino em série? Um bode expiatório? Uma vítima da histeria religiosa? Ou todas essas coisas ao mesmo tempo? 

Essa ambiguidade parece feita sob medida para Eggers, que costuma partir de uma pergunta histórica antes de chegar ao horror fantástico.


Como vai ser o lobisomem de Robbert Eggers?


Pintura de Jakub Różalski

O lobisomem, no contexto histórico apresentado acima, pode ser interpretado por Robert Eggers tanto como uma criatura sobrenatural quanto como a manifestação de um medo coletivo. Essa dualidade também pode influenciar diretamente o design do monstro. Ao contrário dos lobisomens consagrados por Hollywood, o folclore medieval nunca estabeleceu uma aparência única para essas figuras. Algumas narrativas descrevem homens que se transformavam completamente em lobos; outras retratam híbridos entre humano e animal, com características que variavam de acordo com a tradição local. Algumas sequer mencionam transformação física, sugerindo que a condição era espiritual ou demoníaca. 

Se Eggers seguir a mesma lógica usada para reinventar Orlok em Nosferatu, é possível que seu lobisomem seja menos inspirado pelo cinema e mais por manuscritos medievais, relatos folclóricos e crenças populares da época. Talvez algo magro, doente, quase cadavérico. Mas acredito que não incomodaria ver um híbrido na tela. Quem sabe algo próximo das pinturas de Jakub Różalski (imagem), onde homem e animal parecem fundidos em uma figura que desafia classificações simples. Uma aberração que parece ter saído de um pesadelo religioso do século XIII. 

É justamente por isso que a ausência da criatura no trailer chama tanta atenção. Eggers pode estar escondendo seu design por razões muito mais narrativas do que promocionais. Ou então, o lobisomem preserve muito mais de suas características humanas em favor de uma abordagem psicológica, embora a sinopse oficial do filme sugira uma transformação. Veja o trailer.


Trailer de "Lobis-Homem"

Se o filme seguir a lógica de A Bruxa, talvez passemos grande parte da história observando personagens discutirem a existência do monstro, interpretando sinais, julgando suspeitos e tentando compreender acontecimentos que não conseguem explicar. Até que, em algum momento próximo ao final, o sobrenatural finalmente se revele. 

Ou talvez ele se revele apenas o suficiente para que continuemos discutindo o que realmente vimos quando as luzes do cinema se acenderem. Porque, no universo de Robert Eggers, o verdadeiro horror raramente nasce apenas da criatura. Ele nasce da colisão entre folclore, fé, medo e realidade. E poucas lendas europeias oferecem um terreno tão fértil para essa abordagem quanto a do homem-lobo.

Lobis-Homem tem previsão de estreia para janeiro de 2027.








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* Licantropia é a transformação mítica de um humano em lobo.


Artigo em inglês e Livro Histórico relacionados
Livro na Amazon Malleus Maleficarum sobre a perseguição das bruxas







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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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