Cara-de-Barro encontra sua força no horror corporal (Pode conter Spoilers)

Entre os vilões da DC, Cara-de-Barro é um personagem com potencial para histórias que exploram a relação entre aparência, identidade e deterioração física. Criado nos quadrinhos em 1940, ele passou por diferentes versões ao longo das décadas, mas a instabilidade do próprio corpo continua sendo uma de suas características mais marcantes. Em sua chegada aos cinemas, essa condição oferece um ponto de partida promissor para o horror corporal, especialmente pela ligação entre a aparência de Matt Hagen e sua profissão de ator. O problema é que o filme demora a encontrar uma forma interessante de explorar essas possibilidades.

Interpretado por Tom Rhys Harries, Matt é um ator em ascensão cuja imagem representa parte importante de seu sucesso profissional. Quando uma agressão compromete seu rosto, ele vê a carreira ameaçada e recorre a um tratamento experimental que envolve microrganismos capazes de alterar suas células. A premissa aproxima o drama profissional do horror físico: para alguém que depende da própria aparência e precisa assumir diferentes papéis diante das câmeras, perder o controle sobre o corpo significa também colocar em risco a identidade que construiu para si. É nessa relação que Cara-de-Barro encontra sua ideia mais interessante.





Warner Bros. Pictures

A transformação física poderia funcionar como uma extensão dos conflitos de Matt, questionando até que ponto a aparência determina o valor que atribuímos a alguém e como a profissão de ator torna essa relação ainda mais complexa. O corpo, afinal, é ao mesmo tempo instrumento de trabalho, objeto de exposição e parte da identidade do personagem. A deterioração dessa ferramenta deveria conduzir a uma experiência tão psicológica quanto visceral. Entretanto, o roteiro nem sempre consegue desenvolver as implicações dessa premissa com a profundidade necessária; deixando o melhor momento do filme para mais tarde.

O início de Cara-de-Barro me parece apressado, superficial e mal conduzido. Eu estava disposto a acompanhar mais uma história de origem, mas a apresentação de Matt Hagen deixa lacunas importantes sobre sua vida pessoal. Sabemos de sua vivência profissional com seus colegas nos sets de filmagem, mas pouco sobre as relações que mantém fora dali. A mãe é mencionada como alguém que Matt deseja honrar enquanto busca reconhecimento como ator, mas o filme não esclarece suficientemente o lugar que ela ocupa em sua vida, se houve uma perda recente na família ou mesmo que família existe além dessa referência materna. Fica a impressão de que cenas importantes podem ter sido cortadas para acelerar a narrativa e evitar que o público perca o interesse na origem do vilão. Seja essa a intenção ou não, a pressa compromete a construção emocional do personagem e faz com que seu drama pareça menos desenvolvido do que a premissa permitiria.

A direção de James Watkins reforça essa fragilidade ao adotar uma estética convencional, que pouco contribui para estabelecer uma identidade visual menos genérica. Essa falta de personalidade também se reflete na rapidez com que o filme conduz Matt ao conflito central. Ele conhece Mia, interpretada por Joana Ribeiro, durante um encontro repentino em uma boate, e os dois se envolvem sexualmente, apesar de ela já manter uma relação com um magnata. Quando o homem descobre o envolvimento, a violência atinge justamente aquilo que representa o maior patrimônio profissional de Matt: seu rosto. A sequência estabelece com rapidez a dimensão da tragédia, mas a maneira como esses acontecimentos são encadeados deixa pouco espaço para desenvolver as relações e as motivações envolvidas.

O rosto de Matt é apresentado como seu cartão de visita, a imagem que abre portas e sustenta suas ambições como ator. O filme, porém, poderia explorar melhor o peso dessa dependência antes de comprometer tão rapidamente aquilo que dá sentido à sua carreira. Sem tempo suficiente para aprofundar as relações pessoais e profissionais do protagonista, o acontecimento que deveria abalar profundamente sua trajetória acaba parecendo um mecanismo de roteiro para colocar a história em movimento.


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Essa pressa também afeta a introdução de outros personagens, como a doutora Caitlyn Corr, interpretada por Naomi Ackie, que entra na vida de Matt por meio do tratamento experimental. No início, ela já está noiva de John Borrelli, policial de Gotham vivido por Max Minghella, cuja habilidade para identificar mentiras terá importância na investigação de mortes misteriosas ligadas à máfia. São núcleos narrativos que prometem ampliar o alcance da história, mas cuja apresentação contribui para a sensação de que o filme está mais preocupado em avançar para o próximo acontecimento do que em construir suas relações com consistência.

A falta de sutileza aparece também na maneira como Caitlyn se aproxima de Matt. Seus olhares e gestos, especialmente ao tocar o rosto do paciente, parecem sinalizar muito cedo um interesse que ultrapassa o vínculo profissional. Não é a possibilidade de um envolvimento pessoal que incomoda, e sim a insistência com que o filme parece querer tornar essa possibilidade evidente antes mesmo de desenvolver sua dinâmica a partir do fato de ela ser comprometida. A relação poderia ganhar força pela ambiguidade, deixando o espectador perceber os limites entre interesse científico, empatia e atração. Mas o filme, a direção ou atuação da atriz, parece não saber distinguir para onde vai seu interesse. Em vez disso, a encenação antecipa uma leitura que ainda não conquistou dramaticamente. É mais um exemplo de como o ritmo prejudica a construção dos personagens e enfraquece situações que precisariam de mais espaço para adquirir significado.

A situação melhora quando os elementos fantásticos ganham espaço e o filme se aproxima de maneira mais decidida do horror corporal. À medida que a transformação de Matt passa a ocupar o centro da narrativa, surge uma oportunidade de aproximar o espetáculo físico dos conflitos que sustentam o personagem. O horror pode dar forma à sua dependência da aparência, ao medo de perder o controle sobre a própria imagem e à dificuldade de separar aquilo que ele é dos papéis que representa. É quando Cara-de-Barro encontra suas possibilidades mais promissoras, embora ainda precise superar a pressa e a falta de sutileza que marcam boa parte de sua construção inicial.


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Apesar das limitações do início, Cara-de-Barro encontra qualidades quando se dedica ao horror corporal, presente em diversas cenas. É possível reconhecer referências a dois clássicos do gênero: uma sequência ambientada em um banheiro remete à composição visual de O Iluminado, de Stanley Kubrick, enquanto a transformação progressiva de Matt evoca A Mosca, de David Cronenberg. Nesse segundo caso, o filme acerta ao acompanhar a deterioração física gradualmente, permitindo que o horror se desenvolva junto às mudanças do corpo. São momentos em que a narrativa encontra imagens capazes de provocar desconforto e explorar o potencial perturbador do personagem, aproximando sua transformação de uma experiência física que se impõe aos poucos.

Embora exista muita inventividade, e o roteiro se permita empenhar-se no seguimento da vingança de Matt, o que pode não ser tão satisfatório nesses momentos é a maneira como as transformações são apresentadas. Em determinados momentos, cortes rápidos substituem a observação do processo, mostrando o resultado de uma mudança sem explorar tudo o que poderia haver de perturbador em sua realização. O horror corporal depende muito da relação entre duração, textura e expectativa. Ver um corpo perder sua estabilidade pode ser tão importante quanto compreender o que está acontecendo com ele. Ao abreviar esses momentos, Watkins reduz o impacto físico das imagens e deixa escapar oportunidades de construir uma experiência mais incômoda de transformação corporal. Digamos que Matt se transforma em qualquer pessoa muito rapidamente. Chega a ser cômico em alguns momentos, o que pode ser um bom alívio, durante a crescente tensão.

A trajetória de James Watkins ajuda a entender o tipo de terror que encontramos em Cara-de-Barro. Depois de A Mulher de Preto e Não Fale o Mal, o diretor demonstra familiaridade com as convenções do gênero, mas ainda sinto falta de uma identidade visual capaz de transformar esse repertório em algo mais particular. A proposta de explorar a deterioração física e psicológica de um ator oferecia espaço para escolhas mais ousadas, sobretudo com Mike Flanagan envolvido desde o desenvolvimento da ideia e na coautoria do roteiro ao lado de Hossein Amini (Drive). A curiosidade sobre o que Flanagan faria na direção é inevitável, embora não seja possível saber se sua abordagem teria alcançado outro resultado. A própria relação com The Batman, de Matt Reeves, também merece atenção, pois, apesar da associação visual em vermelho sugerida pelo marketing e da participação de Reeves como produtor, o filme pertence ao universo DC reformulado por James Gunn, sem integrar a continuidade do Batman interpretado por Robert Pattinson. Essa proximidade parece dizer mais sobre a trajetória de desenvolvimento do projeto do que sobre uma conexão narrativa entre esses dois universos.

Como disse em minha primeira impressão, se demorei a me envolver com a jornada de Matt Hagen, o momento final conseguiu me puxar para dentro do filme sem me perder mais. Pois é quando Cara-de-Barro parece finalmente disposto a começar algo realmente perturbador, aproximando a transformação física da desintegração psicológica do personagem e encontrando uma expressão mais inquietante para sua trajetória. Essa chegada tardia não apaga as limitações da direção nem o desenvolvimento irregular de algumas relações, mas muda a impressão que fica da experiência. Há uma ideia forte por trás dessa origem, e o desfecho oferece um vislumbre do horror que ela pode sustentar quando corpo, identidade e atuação passam a se confundir de maneira mais ameaçadora. Para os fãs do vilão, há motivos para se interessar por essa interpretação mais sombria de sua história; para mim, fica a sensação de que o filme finalmente encontra seu caminho quando está prestes a terminar.







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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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