Bom Garoto (Comentário com Spoiler)

Recentemente tive a oportunidade de conferir ao filme Bom Garoto, ao qual cheguei sem praticamente nenhuma referência prévia. Não conhecia a proposta, não tinha acompanhado sua passagem por festivais, não vi trailer(s), e tampouco sabia exatamente o que esperar de seu diretor polonês Jan Komasa. Isso acabou tornando a experiência mais interessante, porque fui descobrindo aos poucos que por trás de uma premissa aparentemente simples havia um drama ou suspense psicológico bem mais elaborado do que eu imaginava. Disponível no Brasil a partir de hoje, 10 de setembro, com exclusividade pelo Filmelier+ Prime Video, o filme merece ser descoberto antes da leitura desta review, para que suas surpresas sejam preservadas.
A surpresa também veio do elenco. Stephen Graham é um daqueles atores que reconheço imediatamente, mesmo quando não lembro de pronto o nome. Já o vi em trabalhos como Adolescência, um dos grandes sucessos recentes da televisão, e aqui ele aparece em uma composição bem diferente. O mesmo aconteceu com Andrea Riseborough, que associo primeiro a Oblivion (2013), mas que também já passou por produções cult como Possessor (2020). Ver os dois dividindo uma história tão peculiar foi um dos primeiros motivos para eu me interessar pelo que Bom Garoto estava construindo.
É por esses pequenos questionamentos que Bom Garoto se torna mais interessante. O filme, no entanto, não precisa convencer que o casal está certo para mostrar que existe algo naquela casa capaz de afetar Tommy. É onde começo a ter minhas dúvidas sobre a sua verdadeira relação com o casal. A violência que mantém o jovem preso convive com uma tentativa genuína, ainda que completamente distorcida, de incorporá-lo à família. Quando ele deixa o porão e passa a circular pela casa, a relação com Jonathan, o suposto filho biológico do casal, também contribui para essa aproximação. Digo "suposto" pois, até mesmo ele, o caçula, pode ter sido resultado de um sequestro, o que o filme também não revela.
Anson Boon sustenta boa parte dessa ambiguidade ao tornar Tommy um personagem difícil de simplesmente rejeitar. Seu carisma, quando surge, ajuda a explicar o apelo do personagem, especialmente em uma cena que me fez entender perfeitamente a lógica do bad-boy de coleira (bondage). O filme pode até querer discutir violência, abandono e reabilitação, mas também coloca Tommy naquele conveniente lugar de "alívio cômico" e, convenhamos, fica difícil não entender o apelo.
A surpresa também veio do elenco. Stephen Graham é um daqueles atores que reconheço imediatamente, mesmo quando não lembro de pronto o nome. Já o vi em trabalhos como Adolescência, um dos grandes sucessos recentes da televisão, e aqui ele aparece em uma composição bem diferente. O mesmo aconteceu com Andrea Riseborough, que associo primeiro a Oblivion (2013), mas que também já passou por produções cult como Possessor (2020). Ver os dois dividindo uma história tão peculiar foi um dos primeiros motivos para eu me interessar pelo que Bom Garoto estava construindo.
Em Bom Garoto, o sequestro de um jovem de 19 anos começa como uma situação de violência bastante evidente, mas aos poucos ganha contornos mais incômodos. Tommy, interpretado por Anson Boon, é mantido preso no porão de Chris e Kathryn, um casal que decide submetê-lo a um processo particular de reabilitação para transformá-lo em um bom menino. A premissa é apresentada como um trhiller psicológico, onde controle, afeto e violência passam a ocupar espaços cada vez menos distinguíveis.
Tommy chega à casa como alguém que parece ter perdido qualquer limite. O filme faz questão de apresentá-lo antes do sequestro envolvido em drogas, desacato a autoridade, violência, infidelidade conjugal entre outros excessos, estabelecendo um personagem difícil de defender. No entanto, isso não concede ao casal qualquer legitimidade para assumir sua punição. Komasa trabalha sobre essa contradição. Chris e Kathryn não são autoridades, terapeutas ou responsáveis por Tommy. São sequestradores que acreditam saber o que é melhor para ele.
A transformação proposta pelo casal também passa por métodos absurdos. Tommy é acorrentado, castigado, obrigado a assistir a propagandas antidoping, a registros de seu próprio mau comportamento na internet e submetido a uma espécie de condicionamento que lembra a violência de Laranja Mecânica. Ao mesmo tempo, recebe comida adequada, ganha óculos de grau quando descobrem que sua visão é ruim e passa a participar cada vez mais da rotina da família a medida que demonstra bom comportamento. O cativeiro continua sendo um cativeiro, mas começa a oferecer a Tommy um cuidado especial que, não ironicamente, parece ter faltado em sua família original. Mas até eu ligar os pontos e chegar a essa conclusão cheguei a pensar que Tommy fosse o filho rebelde do casal.
Tommy chega à casa como alguém que parece ter perdido qualquer limite. O filme faz questão de apresentá-lo antes do sequestro envolvido em drogas, desacato a autoridade, violência, infidelidade conjugal entre outros excessos, estabelecendo um personagem difícil de defender. No entanto, isso não concede ao casal qualquer legitimidade para assumir sua punição. Komasa trabalha sobre essa contradição. Chris e Kathryn não são autoridades, terapeutas ou responsáveis por Tommy. São sequestradores que acreditam saber o que é melhor para ele.
A transformação proposta pelo casal também passa por métodos absurdos. Tommy é acorrentado, castigado, obrigado a assistir a propagandas antidoping, a registros de seu próprio mau comportamento na internet e submetido a uma espécie de condicionamento que lembra a violência de Laranja Mecânica. Ao mesmo tempo, recebe comida adequada, ganha óculos de grau quando descobrem que sua visão é ruim e passa a participar cada vez mais da rotina da família a medida que demonstra bom comportamento. O cativeiro continua sendo um cativeiro, mas começa a oferecer a Tommy um cuidado especial que, não ironicamente, parece ter faltado em sua família original. Mas até eu ligar os pontos e chegar a essa conclusão cheguei a pensar que Tommy fosse o filho rebelde do casal.
É por esses pequenos questionamentos que Bom Garoto se torna mais interessante. O filme, no entanto, não precisa convencer que o casal está certo para mostrar que existe algo naquela casa capaz de afetar Tommy. É onde começo a ter minhas dúvidas sobre a sua verdadeira relação com o casal. A violência que mantém o jovem preso convive com uma tentativa genuína, ainda que completamente distorcida, de incorporá-lo à família. Quando ele deixa o porão e passa a circular pela casa, a relação com Jonathan, o suposto filho biológico do casal, também contribui para essa aproximação. Digo "suposto" pois, até mesmo ele, o caçula, pode ter sido resultado de um sequestro, o que o filme também não revela.
Mas não estamos impedidos de formular nossas próprias hipóteses a partir dos elementos que a narrativa deixa sem explicação ou confirmação no subtexto. Tommy deixa gradualmente de ser apenas um prisioneiro e começa a ocupar o lugar de alguém que aquela família deseja ter por perto, e a pergunta só aumenta. Cheguei a pensar que Tommy poderia estar envolvido em algum crime grave relacionado ao filho falecido do casal, uma saída esperada para a narrativa, que o coloca como agressor de um jovem em um dos vídeos ao qual é forçado a ver, mas o filme prefere não entregar essa resposta.
| Magnolia Pictures |
Stephen Graham aproveita essa ambiguidade para construir um Chris particularmente desconfortável. Há certa receptividade na maneira como o personagem se apresenta inicialmente, o que dificulta enxergá-lo apenas como uma figura ameaçadora, mas essa também não é a proposta do filme; os personagens possuem suas próprias complexidades morais. Andrea Riseborough acompanha essa estranheza como Kathryn, inicialmente mais rígida e distante. Eu até pensei, quando ela aparece em cena a primeira vez, que talvez fosse uma vítima de Chris por estar aparentemente abatida, mas progressivamente ela é transformada pela presença de Tommy numa figura materna mais segura e estranhamente persuasiva. O filme sugere que Tommy funciona como uma tentativa de preencher um vazio deixado por Charlie, alguém que pertenceu à história daquela suposta família e cuja ausência nunca é totalmente explicada.
Essa falta de explicações é, ao mesmo tempo, uma das qualidades e uma das limitações do longa. Komasa deixa informações suficientes para estimular interpretações sobre Charlie, sobre a própria família e sobre as razões que levam Chris a escolher Tommy. Há também Rina, interpretada por Monika Frajczyk, uma empregada que percebe rapidamente que existe algo errado naquela casa, mas permanece ali por estar em uma situação de vulnerabilidade. Sua presença leva o filme para uma discussão sobre sobrevivência e omissão, já que perceber uma injustiça não significa necessariamente possuir condições para enfrentá-la.
Não me incomoda que o filme deixe certas questões sem resposta, já que parte de sua força está em permitir interpretações sobre aquilo que não é explicado. O único revés, porém, está em algumas situações que parecem não encontrar sustentação dentro da própria narrativa. O que acontece com Rina, por exemplo, permanece um mistério, assim como a própria contratação dela, que inicialmente parece preparar o terreno para uma participação mais relevante na história, mas acaba dando lugar a uma presença cada vez mais secundária da personagem. Nesse sentido, Bom Garoto funciona melhor quando usa suas lacunas para provocar dúvidas do que quando deixa de desenvolver suficientemente situações que a própria trama apresentou.
Essa falta de explicações é, ao mesmo tempo, uma das qualidades e uma das limitações do longa. Komasa deixa informações suficientes para estimular interpretações sobre Charlie, sobre a própria família e sobre as razões que levam Chris a escolher Tommy. Há também Rina, interpretada por Monika Frajczyk, uma empregada que percebe rapidamente que existe algo errado naquela casa, mas permanece ali por estar em uma situação de vulnerabilidade. Sua presença leva o filme para uma discussão sobre sobrevivência e omissão, já que perceber uma injustiça não significa necessariamente possuir condições para enfrentá-la.
Não me incomoda que o filme deixe certas questões sem resposta, já que parte de sua força está em permitir interpretações sobre aquilo que não é explicado. O único revés, porém, está em algumas situações que parecem não encontrar sustentação dentro da própria narrativa. O que acontece com Rina, por exemplo, permanece um mistério, assim como a própria contratação dela, que inicialmente parece preparar o terreno para uma participação mais relevante na história, mas acaba dando lugar a uma presença cada vez mais secundária da personagem. Nesse sentido, Bom Garoto funciona melhor quando usa suas lacunas para provocar dúvidas do que quando deixa de desenvolver suficientemente situações que a própria trama apresentou.
Ainda assim, há uma ideia particularmente forte na maneira como Komasa encerra essa história. Depois de conseguir escapar, Tommy retorna para casa e percebe que sua ausência não mobilizou a própria mãe. Quem havia comunicado seu desaparecimento era sua namorada. Quando finalmente a reencontra, ela está em uma situação muito diferente daquela apresentada no início. A namorada, vivida por Savannah Steyn, uma vez saudável, alguém que recusava os ilícitos oferecidos a ela, no fim está completamente entregue à toda perdição. Ao vê-la nesse estado, Tommy então decide levá-la para a casa de Chris e Kathryn. O gesto pode ser interpretado como uma tentativa de ajudá-la, mas também como o reconhecimento de que aquela família, por mais perturbadora que seja, passou a representar para ele uma forma de pertencimento.
| Magnolia Pictures |
Anson Boon sustenta boa parte dessa ambiguidade ao tornar Tommy um personagem difícil de simplesmente rejeitar. Seu carisma, quando surge, ajuda a explicar o apelo do personagem, especialmente em uma cena que me fez entender perfeitamente a lógica do bad-boy de coleira (bondage). O filme pode até querer discutir violência, abandono e reabilitação, mas também coloca Tommy naquele conveniente lugar de "alívio cômico" e, convenhamos, fica difícil não entender o apelo.
A atuação de Boon precisa atravessar um personagem inicialmente repulsivo sem transformá-lo em uma vítima idealizada. Pois Tommy continua sendo alguém capaz de atitudes violentas e moralmente questionáveis, mas o filme encontra certa humanidade nele sem precisar absolvê-lo de seus erros do passado. Stephen Graham e Andrea Riseborough, por sua vez, fazem com que Chris e Kathryn sejam mais do que simples vilões dessa história, embora o roteiro nem sempre consiga desenvolver todas as possibilidades sugeridas por seus personagens.
Essa é uma conclusão ambígua, difícil de aceitar e pode frustrar algumas pessoas porque não transforma a experiência de Tommy em uma simples história de libertação. Ele escapa fisicamente, mas parece carregar consigo a lógica daquele lugar. O cativeiro deixa de ser apenas o espaço onde esteve acorrentado e passa a ser também a estrutura na qual encontrou algum tipo de atenção e cuidado. O filme, então, desloca sua questão central. Já não se trata apenas de saber como Tommy vai fugir, mas de entender por que alguém escolheria voltar para aquilo de que acabou de escapar.
A referência ao filme Kes, de Ken Loach, durante uma sessão de cinema-em-casa da família, ajuda a tornar essa ideia ainda mais amarga. Tommy se identifica com a história de um garoto marginalizado e, depois de assistir ao filme, pede para voltar ao porão. A associação transforma o próprio cativeiro em uma espécie de retorno ao lugar onde ele acredita pertencer. É uma das escolhas mais interessantes de Bom Garoto porque não precisa explicar completamente o que Tommy sente. Algumas das escolhas narrativas aqui são frágeis e certas questões permanecem abertas talvez mais por insuficiência do roteiro do que por uma ambiguidade necessariamente sofisticada. Ainda assim, a contradição que permanece depois dos créditos é poderosa.
A referência ao filme Kes, de Ken Loach, durante uma sessão de cinema-em-casa da família, ajuda a tornar essa ideia ainda mais amarga. Tommy se identifica com a história de um garoto marginalizado e, depois de assistir ao filme, pede para voltar ao porão. A associação transforma o próprio cativeiro em uma espécie de retorno ao lugar onde ele acredita pertencer. É uma das escolhas mais interessantes de Bom Garoto porque não precisa explicar completamente o que Tommy sente. Algumas das escolhas narrativas aqui são frágeis e certas questões permanecem abertas talvez mais por insuficiência do roteiro do que por uma ambiguidade necessariamente sofisticada. Ainda assim, a contradição que permanece depois dos créditos é poderosa.
Tommy foi sequestrado e submetido a uma violência injustificável, mas também encontrou naquele lugar uma espécie de família que não parecia encontrar em casa. Essa inversão torna o filme diferente. Chris e Kathryn querem transformar Tommy, mas talvez o resultado mais perverso de sua experiência seja fazê-lo acreditar que aquela família era a melhor opção que tinha.
Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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