A Ilha Esquecida transforma memória e amizade em uma aventura surpreendentemente emocional


É quarta-feira, 9 de setembro. Chove muito em São Paulo e, mesmo assim, atendo a mais uma cabine de imprensa, a convite da Universal Pictures Brasil. Cheguei às 10h30, acreditando estar atrasado para o credenciamento marcado para as 10h, mas ainda havia uma fila se formando no hall de entrada do cinema. Perguntei a uma colega jornalista que estava na minha frente se aquela era a fila do credenciamento e ela também não sabia dizer, pois havia acabado de chegar. 

Depois de alguns minutos, um homem passou ao telefone falando alguma coisa sobre a energia elétrica. Recebemos lacres para os smartphones e a fila só crescia. No fim, toda aquela espera antecedeu uma animação que, de certa forma, acabaria falando exatamente sobre aquilo que permanece depois que determinados momentos passam.





A Ilha Esquecida (DreamWorks/Divulgação)

A Ilha Esquecida é uma animação bastante especial dentro da atual fase da DreamWorks. O filme acompanha Jô e Raissa, duas amigas que cresceram juntas nas Filipinas e estão prestes a entrar em momentos diferentes de suas vidas. Raissa vai estudar nos Estados Unidos e a amizade das duas passa a ser confrontada pela distância e pela própria necessidade de crescer. Quando encontram um portal que as leva à misteriosa Ilha de Nakali, elas descobrem que aquele lugar fantástico guarda criaturas inspiradas no folclore filipino, mas também uma ameaça muito mais íntima. Suas memórias começam a desaparecer.

É uma premissa que poderia facilmente resultar apenas em mais uma aventura fantástica, mas o filme parece querer falar muito mais sobre o valor da memória e das lembranças que criamos ao longo da vida. Existe algo inerente ao ser humano nessa necessidade de deixar uma marca, de ser visto, de permanecer na memória de alguém. E por isso a história me levou de volta a uma máxima que carrego comigo há bastante tempo. Eu não quero ser lembrado

Não quero ser visto, ou necessariamente deixar uma marca, embora trabalhar com mídia exija de mim certo sacrifício nesse sentido e eu sempre acabo entrando em contradição porque este é sim um grande dilema. Também existe uma contradição entre produzir algo para ser visto e não ter necessariamente o desejo de ser visto. Talvez porque, para mim, a questão nunca tenha sido exatamente permanecer na memória de alguém, mas preservar aquilo que um dia foi importante para mim. Os filmes são importantes. Falar sobre filmes é importante para mim. Escrever, e escrever sobre eles, é ainda mais importante. Mas eu divago.


A Ilha Esquecida (DreamWorks/Divulgação)

O filme me fez pensar no custo de uma memória perdida. Existem acontecimentos felizes que um dia foram presentes e que hoje são apenas lembranças. Pessoas, lugares e momentos que já não existem da mesma maneira, mas que continuam encontrando alguma forma de permanecer dentro de nós. Quando A Ilha Esquecida coloca a perda dessas lembranças como uma ameaça concreta, transforma algo abstrato em uma experiência visual e emocional muito fácil de compreender. O filme traduz a perda dos objetos, sua doação a uma personagem que se alimenta das memórias, como a perda literal de uma parte da vida de seu doador. 

Mas o filme vai além do medo de esquecer alguém. Ele questiona, o que acontece com uma pessoa quando ela perde todas as suas memórias? Até que ponto continuamos sendo quem somos quando já não sabemos de onde viemos, quem amamos, o que vivemos ou por que determinadas coisas, como objetos, importam tanto para nós? O filme tem uma resposta brilhante quando se trata dessa falta de memória, mas prefiro não tornar isso em spoiler por conta do fator surpresa que ele carrega e que achei brilhante o filme pontuar.

Além disso, acho fascinante a discussão que se estende aos objetos e ao significado que atribuímos a eles. Porque, um objeto, isoladamente, pode ser apenas matéria. Mas aquilo que construímos ao redor dele é outra coisa. Uma fotografia não é apenas papel. Uma roupa não é apenas tecido. Um brinquedo não é apenas plástico. Uma casa não é apenas uma construção. Nós colocamos significado nas coisas. E, ao fazê-lo, transformamos objetos em depósitos de memória por assim dizer. Ou, em outras palavras, uma fotografia, uma roupa, um brinquedo ou qualquer objeto que tenha participado de um momento importante passa a carregar um significado que não estava necessariamente nele quando foi criado. 

E ainda melhor, um mesmo objeto pode ter diferentes significados para diferentes pessoas. O pingente de fita cassete que as amigas carregam em seus braceletes, por exemplo, têm em si um valor muito maior para Jô, quem gravou uma fita para Raissa quando mais novas. A mesma fita que Raissa, mesmo carregando consigo o pingente há anos, sequer se lembra a origem ou a razão disso quando mais velha.

Existe algo de freudiano nessa relação entre memória, objeto e desejo de permanência, embora eu imagine que essa seja uma das camadas que mais tende a passar despercebida pelo público infantil. E não vejo isso como um problema. Pelo contrário. A Ilha Esquecida pode ser aquele tipo de animação cuja mensagem (forte) fica adormecida por alguns anos até que a criança cresça e consiga compreendê-la de outra maneira. É semelhante à sensação de rever determinados desenhos que assistíamos quando pequenos e perceber, muito tempo depois, o quanto havia de forte, melancólico ou complexo naquelas histórias que simplesmente não tínhamos repertório para compreender por completo. Não consigo me lembrar de nenhum, no momento, mas sei que estão lá...

Essa também é uma animação bastante interessada na importância de crescer e amadurecer, sair do berço e cortar o cordão umbilical, algo que aqui é levado ao pé da letra de maneira grotesca e engraçada. Crescer não apenas enquanto pessoas, mas também enquanto indivíduos capazes de rever nossas próprias fantasias e ideias para nos adaptar ao mundo real. O filme mostra que a amizade entre Jô e Raissa não precisa deixar de existir porque suas vidas estão mudando, mas precisa encontrar uma nova forma de existir. E, para tanto, as memórias, colecionadas através dos pingentes ao longo dos anos, deverão ser preservados.


A Ilha Esquecida (DreamWorks/Divulgação)

O estilo visual ajuda bastante a me manter investido nessa construção narrativa. O filme é dirigido por Joel Crawford e Januel P. Mercado, dupla que já havia trabalhado junta em O Gato de Botas 2: O Último Pedido (2022). Crawford dirigiu aquele filme enquanto Mercado atuou como co-diretor, e os dois carregam para A Ilha Esquecida uma linguagem estilizada, dinâmica e muito expressiva, próxima dessa transformação estética que a animação comercial passou a incorporar com mais força depois do impacto do Aranhaverso (2018).

Aqui, no entanto, não percebo uma reprodução daquele estilo, mas uma animação mais livre, capaz de alternar velocidade, exagero e composição para reforçar o estado emocional da narrativa. Há também algumas reações exageradas claramente inspiradas nos animes japoneses, além de elementos absurdos que beiram a psicodelia. A própria paleta de cores já sugere uma viagem desse tipo. Em determinado momento, inclusive, me perguntei se esse filme foi criado sob o efeito de alguma coisa. Não que eu tenha interesse real em descobrir. Mas pensei.

A parceria entre Crawford e Mercado também ganha um significado interessante quando se conhece um pouco da trajetória dos dois dentro da DreamWorks, um estúdio que historicamente cultivou uma identidade mais irreverente e disposta a deixar seus talentos experimentarem. Shrek continua sendo um dos grandes exemplos desse espírito rebelde que ajudou a diferenciar o estúdio dentro da animação comercial. 

Crawford e Mercado se conheceram trabalhando em Kung Fu Panda 2 e passaram anos colaborando em diferentes projetos da DreamWorks antes de chegarem novamente juntos à direção. Mercado, que tem origem filipino-americana, também ajudou a aproximar A Ilha Esquecida de elementos de sua própria herança cultural. Isso faz com que o folclore filipino presente na ilha não pareça apenas uma escolha estética ou uma maneira de diferenciar o universo da animação, mas parte de uma construção que também nasce das experiências e referências de quem está contando essa história.


A Ilha Esquecida (DreamWorks/Divulgação)

Essa é uma das coisas que mais gosto no filme. Ele fala sobre preservar memórias enquanto constrói uma história profundamente ligada à cultura e às histórias que são transmitidas de uma geração para outra. Existe uma certa beleza em perceber que uma animação sobre o medo de esquecer também nasce do desejo de manter vivas determinadas histórias, criaturas e referências culturais. A aventura envolve criaturas do folclore filipino, entre elas a Manananggal, além de Raww, um cão-lobisomem atrapalhado que acompanha as protagonistas. Onde ele passa é mal recebido porque tem o instinto de urinar em tudo, marcar território. E o filme não perde a oportunidade de traduzir esse gesto como uma vontade íntima de Raww de querer ser visto.

A Ilha Esquecida está interessada em compreender por que determinadas lembranças importam tanto. A vida exige que mudemos, deixemos pessoas para trás, encontremos novos caminhos e até abandonemos algumas versões de nós mesmos. Isso não significa, necessariamente, que aquilo que vivemos perdeu seu valor. É nesse ponto que o filme encontra seu tom mais dramático. Mesmo defendendo a importância de preservar aquilo que nos constitui, a história não transforma a permanência em uma obrigação. Existe uma diferença entre querer permanecer na memória dos outros e reconhecer o valor daquilo que permanece dentro de nós. Talvez seja essa uma das ideias mais bonitas que A Ilha Esquecida consegue construir.

Embora a classificação seja livre, seu apelo infantil está principalmente nas cores vibrantes, no ritmo frenético e nas interações bastante animadas, muitas vezes bobas e farsescas entre os personagens. Alguns deles, que inclusive, me pareceram expressivos demais, daqueles que chegam ocupando espaço, chamando atenção e deixando uma marca imediata em cena, muito forte, seja pela personalidade ou por características físicas bastante memoráveis. É o caso de Raww e do Príncipe Sereio, que inicialmente parece só pensar em si mesmo, mas também ganha um arco de redenção. 

Há algo curioso nisso quando penso novamente no tema central da animação. São personagens construídos para serem lembrados, cada um à sua maneira, mesmo em uma história tão preocupada com aquilo que pode ser esquecido. E talvez seja essa personalidade exagerada que faça com que eles funcionem tão bem dentro da aventura, porque, por trás das cores, das piadas e de toda essa movimentação, A Ilha Esquecida ainda encontra espaço para dar a eles algum significado.

O filme entende essa diferença e transforma uma aventura de fantasia em uma reflexão delicada sobre memória, amizade, amadurecimento e o significado que damos às coisas. É uma animação que provavelmente será divertida para uma criança, emocionante para um jovem adulto e talvez ainda mais significativa para quem já teve tempo suficiente para descobrir que algumas das coisas mais importantes da vida só percebemos o quanto significavam depois que já passaram. 

Essa é uma das animações da DreamWorks em que o emocional parece querer falar mais alto, mas que carrega muita verdade quando o faz. E acredito que ela vá conversar particularmente bem com jovens adultos que se predisponham a assisti-la como quem não quer nada. Eles também podem acabar, sem muito esforço, surpreendidos. 







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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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