M. Night Shyamalan estreia canal no YouTube e promete se aventurar no desconhecido
M. Night Shyamalan decidiu experimentar um território diferente do cinema. O diretor de O Sexto Sentido, Fragmentado e A Visita estreou seu próprio canal no YouTube e, em seu primeiro vídeo, deixou claro que ainda não sabe exatamente o que pretende fazer por lá.
Publicado dia 28 de agosto, o vídeo, que surgiu para mim dois dias depois, funciona mais como uma apresentação pessoal do que como o início de um programa com formato definido. Shyamalan se apresenta primeiro como "um cineasta" e complementa dizendo que "faz filmes para viver", antes de explicar que deseja utilizar o espaço para estabelecer uma relação diferente com o público.
A declaração talvez seja uma das melhores pistas sobre o que ele procura na plataforma. O canal parece menos uma estratégia de divulgação e mais um exercício criativo, motivado pela possibilidade de entrar em um território que ainda não domina totalmente. Quem sabe possa ter sido ele influenciado de alguma forma por sucessos recentes de diretores que "saíram" do YouTube para o cinema, como Curry Barker de Obssession e Kane Parsons de Backrooms: Um Não Lugar, fazendo agora o caminho oposto (?)
A ideia fica ainda mais clara quando ele fala sobre se dar "permissão de não ser ótimo". Para um cineasta cuja carreira foi construída em torno de grandes produções, expectativas e de uma identidade autoral bastante reconhecível, a possibilidade de simplesmente experimentar pode ter um significado particular. Mas eu acredito que isso só ajuda a criar ainda mais atenção e expectativa em torno dele e de sua nova investida, seja lá o que isso signifique a curto, médio e, quiçá, longo prazo. Pelo pouco que entendo de marketing, nesse caso o resultado não precisa necessariamente corresponder àquilo que o público espera de um filme de M. Night Shyamalan. O diretor parece a fim de criar, e criar para além do que já foi feito de seu nome, o que também acho louvável.
Também chama atenção o fato dele não apresentar um formato definido para o canal. Não há, pelo menos neste primeiro vídeo, uma programação anunciada, frequência de publicação estabelecida ou indicação precisa sobre o tipo de conteúdo que pretende produzir. Shyamalan admite que ainda não sabe exatamente o que mostrará ao público.
A princípio, isso poderia ser interpretado simplesmente como falta de planejamento. Mas, considerando todo o discurso do vídeo, parece mais coerente entender a indefinição como parte da própria proposta. Shyamalan não está apresentando um produto acabado, mas convidando o público a acompanhá-lo enquanto descobre o que esse novo espaço pode se tornar. É aí que surge a principal dúvida sobre o futuro do canal. Ele pode acabar sendo apenas mais um projeto de uma personalidade conhecida que chega ao YouTube com alguma curiosidade inicial, publica alguns vídeos e desaparece.
A plataforma está cheia de canais criados por atores, músicos e cineastas que não conseguiram transformar a estreia em uma presença duradoura. Por outro lado, há algo no discurso de Shyamalan que sugere uma intenção que pode ir além de simplesmente experimentar a plataforma por algumas semanas. Ao falar em aprofundar sua relação com o público e ao terminar pedindo que as pessoas "fiquem" com ele, o diretor parece interessado em construir uma experiência contínua, ainda que não saiba exatamente qual será seu formato.
Entre as possibilidades estão um diário criativo, reflexões sobre cinema, bastidores de seus trabalhos, registros do processo de criação ou até mesmo um espaço para desenvolver ideias que não necessariamente encontrariam lugar em seus filmes. Nada disso foi anunciado por Shyamalan, portanto, por enquanto, são possibilidades abertas pelo próprio conceito apresentado no vídeo, e não planos confirmados.
Existe ainda uma diferença importante entre fazer conteúdo para o YouTube e promover um filme no YouTube. No primeiro caso, o cineasta pode estabelecer uma comunicação direta com o público sem depender de um lançamento, de uma campanha de estúdio ou de uma janela promocional. Depois de três décadas trabalhando dentro de uma indústria na qual cada filme passa por produção, distribuição, crítica e expectativas comerciais, a possibilidade de simplesmente produzir e publicar pode representar uma liberdade considerável.
Até mesmo o cenário escolhido para o vídeo reforça essa dimensão mais pessoal. Shyamalan aparece em um pequeno espaço que chama de seu "chão", um lugar ao qual vai quando precisa se acalmar. Ao lado dele está uma árvore plantada em homenagem ao pai, que morreu este ano, e que, segundo o diretor, um dia será uma grande árvore. O momento aproxima o projeto de uma reflexão sobre a própria vida, e não apenas sobre sua carreira profissional.
Por isso, talvez seja cedo demais para perguntar se M. Night Shyamalan será um grande criador de conteúdo no YouTube. A questão mais interessante neste momento é o que um cineasta que já conquistou um lugar em Hollywood está procurando ao começar praticamente do zero em uma plataforma como essa?
A resposta, pelo menos no primeiro vídeo, parece estar menos relacionada ao alcance que o canal poderá alcançar e mais à experiência de fazer algo cujo resultado ele próprio desconhece.
Publicado dia 28 de agosto, o vídeo, que surgiu para mim dois dias depois, funciona mais como uma apresentação pessoal do que como o início de um programa com formato definido. Shyamalan se apresenta primeiro como "um cineasta" e complementa dizendo que "faz filmes para viver", antes de explicar que deseja utilizar o espaço para estabelecer uma relação diferente com o público.
Vídeo
O ponto mais interessante do vídeo, está na maneira como Shyamalan apresenta este ato. O diretor não trata o canal como uma simples extensão promocional de sua carreira ou como mais uma ferramenta para divulgar seus filmes. Pelo contrário, ele fala sobre se permitir fazer algo sem saber exatamente onde aquilo vai chegar.
Ao lembrar que faz filmes há 30 anos, Shyamalan afirma que quer "desligar" alguns dos estigmas que carrega na própria cabeça, assim como aqueles construídos pelo público ao longo de sua trajetória. Nesse sentido, o YouTube parece surgir como um espaço de experimentação, no qual ele pode tentar algo diferente sem necessariamente carregar o mesmo peso associado ao seu nome ou trabalho de cineasta.
Ao lembrar que faz filmes há 30 anos, Shyamalan afirma que quer "desligar" alguns dos estigmas que carrega na própria cabeça, assim como aqueles construídos pelo público ao longo de sua trajetória. Nesse sentido, o YouTube parece surgir como um espaço de experimentação, no qual ele pode tentar algo diferente sem necessariamente carregar o mesmo peso associado ao seu nome ou trabalho de cineasta.
Quando eu me sinto assustado, eu me sinto como se estivesse fazendo algo certo.
diz Shyamalan.
A declaração talvez seja uma das melhores pistas sobre o que ele procura na plataforma. O canal parece menos uma estratégia de divulgação e mais um exercício criativo, motivado pela possibilidade de entrar em um território que ainda não domina totalmente. Quem sabe possa ter sido ele influenciado de alguma forma por sucessos recentes de diretores que "saíram" do YouTube para o cinema, como Curry Barker de Obssession e Kane Parsons de Backrooms: Um Não Lugar, fazendo agora o caminho oposto (?)
A ideia fica ainda mais clara quando ele fala sobre se dar "permissão de não ser ótimo". Para um cineasta cuja carreira foi construída em torno de grandes produções, expectativas e de uma identidade autoral bastante reconhecível, a possibilidade de simplesmente experimentar pode ter um significado particular. Mas eu acredito que isso só ajuda a criar ainda mais atenção e expectativa em torno dele e de sua nova investida, seja lá o que isso signifique a curto, médio e, quiçá, longo prazo. Pelo pouco que entendo de marketing, nesse caso o resultado não precisa necessariamente corresponder àquilo que o público espera de um filme de M. Night Shyamalan. O diretor parece a fim de criar, e criar para além do que já foi feito de seu nome, o que também acho louvável.
Também chama atenção o fato dele não apresentar um formato definido para o canal. Não há, pelo menos neste primeiro vídeo, uma programação anunciada, frequência de publicação estabelecida ou indicação precisa sobre o tipo de conteúdo que pretende produzir. Shyamalan admite que ainda não sabe exatamente o que mostrará ao público.
Eu não sei como vai ser, eu não sei o que eu vou mostrar para vocês e o que vocês vão me mostrar.
afirma.
A princípio, isso poderia ser interpretado simplesmente como falta de planejamento. Mas, considerando todo o discurso do vídeo, parece mais coerente entender a indefinição como parte da própria proposta. Shyamalan não está apresentando um produto acabado, mas convidando o público a acompanhá-lo enquanto descobre o que esse novo espaço pode se tornar. É aí que surge a principal dúvida sobre o futuro do canal. Ele pode acabar sendo apenas mais um projeto de uma personalidade conhecida que chega ao YouTube com alguma curiosidade inicial, publica alguns vídeos e desaparece.
A plataforma está cheia de canais criados por atores, músicos e cineastas que não conseguiram transformar a estreia em uma presença duradoura. Por outro lado, há algo no discurso de Shyamalan que sugere uma intenção que pode ir além de simplesmente experimentar a plataforma por algumas semanas. Ao falar em aprofundar sua relação com o público e ao terminar pedindo que as pessoas "fiquem" com ele, o diretor parece interessado em construir uma experiência contínua, ainda que não saiba exatamente qual será seu formato.
Entre as possibilidades estão um diário criativo, reflexões sobre cinema, bastidores de seus trabalhos, registros do processo de criação ou até mesmo um espaço para desenvolver ideias que não necessariamente encontrariam lugar em seus filmes. Nada disso foi anunciado por Shyamalan, portanto, por enquanto, são possibilidades abertas pelo próprio conceito apresentado no vídeo, e não planos confirmados.
Existe ainda uma diferença importante entre fazer conteúdo para o YouTube e promover um filme no YouTube. No primeiro caso, o cineasta pode estabelecer uma comunicação direta com o público sem depender de um lançamento, de uma campanha de estúdio ou de uma janela promocional. Depois de três décadas trabalhando dentro de uma indústria na qual cada filme passa por produção, distribuição, crítica e expectativas comerciais, a possibilidade de simplesmente produzir e publicar pode representar uma liberdade considerável.
Até mesmo o cenário escolhido para o vídeo reforça essa dimensão mais pessoal. Shyamalan aparece em um pequeno espaço que chama de seu "chão", um lugar ao qual vai quando precisa se acalmar. Ao lado dele está uma árvore plantada em homenagem ao pai, que morreu este ano, e que, segundo o diretor, um dia será uma grande árvore. O momento aproxima o projeto de uma reflexão sobre a própria vida, e não apenas sobre sua carreira profissional.
Por isso, talvez seja cedo demais para perguntar se M. Night Shyamalan será um grande criador de conteúdo no YouTube. A questão mais interessante neste momento é o que um cineasta que já conquistou um lugar em Hollywood está procurando ao começar praticamente do zero em uma plataforma como essa?
A resposta, pelo menos no primeiro vídeo, parece estar menos relacionada ao alcance que o canal poderá alcançar e mais à experiência de fazer algo cujo resultado ele próprio desconhece.
A alegria disso está em aventurar-se pelo desconhecido.
conclui.
Se essa experiência será passageira ou se dará origem a uma nova etapa de sua carreira, somente os próximos vídeos poderão responder. Por enquanto, Shyamalan parece disposto a descobrir isso junto com quem decidiu acompanhá-lo. E talvez o fato de nem mesmo ele saber exatamente onde pretende chegar seja a parte mais interessante desse novo projeto. Resta descobrir se o público ficará. E, principalmente, se Shyamalan também pretende permanecer.
Se essa experiência será passageira ou se dará origem a uma nova etapa de sua carreira, somente os próximos vídeos poderão responder. Por enquanto, Shyamalan parece disposto a descobrir isso junto com quem decidiu acompanhá-lo. E talvez o fato de nem mesmo ele saber exatamente onde pretende chegar seja a parte mais interessante desse novo projeto. Resta descobrir se o público ficará. E, principalmente, se Shyamalan também pretende permanecer.
Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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