Helena Bonham Carter sobre Bellatrix Lestrange, Androgenia como defesa e Divórcio como luto; podcast Fashion Neurosis

Criado e apresentado por Bella Freud, o podcast Fashion Neurosis parte de um princípio simples e ao mesmo tempo provocador: tratar moda como sintoma. Não como tendência, mas como linguagem emocional. Bella, estilista britânica e bisneta de Sigmund Freud, conduz o podcast como quem convida o interlocutor a deitar no divã; ainda que o cenário seja outro. A herança freudiana aqui não é exibicionista, mas inevitável. A dinâmica do programa se aproxima de uma sessão de análise informal, em que roupas funcionam como ponto de partida para reflexões pessoais. O que vestimos vira ponto de partida para falar de identidade, memória e desconfortos íntimos.

A convidada do episódio da vez é a atriz Helena Bonham Carter. Antes de qualquer grande tema, Bella pergunta o que ela está vestindo. Helena responde sem cerimônia, quase se desculpando por não ter pensado demais no assunto. Conta que recebeu a mensagem de Bella alguns dias antes, enquanto estava no enterro de um primo. O tom fúnebre não soa pesado. Pelo contrário. Há familiaridade ali, quase conforto. Helena fala da perda e, mais afrente, de outros parentes, entre risadas roucas de fumante que quebram qualquer expectativa de solenidade absoluta. Morte, para ela, parece menos um tabu e mais um terreno conhecido. E a conversa nos presenteia com temas que a atriz desenvolve de maneira digna de uma atenção mais cuidadosa.






Entrevista


Bonham Carter revisita o início da carreira para explicar como vestir-se de forma mais neutra, quase masculina, era uma tentativa de ser levada a sério, de escapar da redução da mulher ao objeto desejável ou decorativo. A sexualização precoce, somada a comentários abertamente misóginos que naturalizavam a ideia de que mulheres não poderiam ser simultaneamente inteligentes, engraçadas e atraentes, ajudou a moldar uma relação ambígua com a própria imagem. O figurino, nesse contexto, surge como armadura, uma forma de camuflagem consciente em um mundo que observa antes de ouvir.

Ao longo do episódio, Helena reflete sobre corpo e construção de identidade com uma franqueza inata, revelando como a androgenia foi, por muitos anos, menos uma escolha estética e mais um mecanismo de defesa. Em um ambiente profissional onde ser mulher significava ser observada, medida e frequentemente subestimada, a atriz descreve o desconforto de habitar um corpo feminino permanentemente exposto ao julgamento alheio e da recusa deliberada a adereços que limitassem movimento ou autonomia. Entre usar salto alto ou preservar a possibilidade de correr por instinto, a escolha sempre foi: não usar. Ela associa a recusa ao salto alto a uma necessidade de autonomia física. Para ela, o calçado era "simplesmente incapacitante" e carregava um sentimento de humilhação. "Eu sentia que você deveria ser capaz de correr", afirma, explicando que precisava se sentir forte, no controle, sendo ela mesma. 

A atriz acrescenta que evitava qualquer elemento que a colocasse sob inspeção constante: não queria que alguém estivesse olhando para seu corpo ou a observando como objeto. Mesmo reconhecendo a contradição de ter passado décadas diante das câmeras, diz que sempre buscou a camuflagem, no figurino e na vida. "Não se trata de me expor. Não tenho nenhum interesse em me expor", conclui, ao afirmar que sua relação com a imagem passa mais pela invenção e reinvenção de si mesma do que pela revelação.

Essas reflexões ajudam a iluminar personagens que marcaram sua trajetória, especialmente aquelas que operam no excesso, no grotesco e no instintivo. Figuras como Bellatrix Lestrange não se explicam apenas pelo roteiro ou pela direção, mas pelo modo como a atriz compreende o corpo como ferramenta de libertação. Ao abandonar o controle socialmente esperado e entregar-se ao impulso, ao riso, à fúria e ao desvio, Bonham Carter transforma o que poderia ser visto como excentricidade em presença cênica dominante.


Helena Bonham Carter como Bellatrix Lestrange em Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007). © Warner Bros. Pictures

Ao aprofundar-se em seus papéis mais icônicos e extremos, Helena também lança uma leitura particular sobre Bellatrix Lestrange (talvez a personagem mais popular de sua carreira, impulsionado pelo sucesso da franquia Harry Potter). A personagem surge pela primeira vez em Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007), quinto filme da série, e também o que me fez passar a levar mais a sério esse universo quando lançou. Fui de expectador neutro/casual a grande fã da saga, especialmente por causa da participação da atriz neste, que parece traduzir pela primeira vez nessas histórias o significado de "bruxa má"; ao usar o feitiço Avada Kedavra. 

Sua personagem é marcada por um comportamento infantil que dialoga diretamente com as reflexões da atriz sobre liberdade, corpo e ausência de contenção. Mas é sua visão  particular que chama atenção, pois, o que levaria Lestrange a se tornar uma comensal da morte? Bella Freud pergunta a Helena, quem ela estava "canalizando" para construir Lestrange, especialmente por causa do contraste entre a imagem etérea e "inocente" que muitas vezes acompanha a atriz e a violência extrema da personagem. 

Quem acompanhou a saga H.P. sabe que Bellatrix é uma das seguidoras mais leais e fanáticas do Lord Voldemort, o lord das trevas. Conhecida pelo extremismo, crueldade e devoção absoluta à causa. E para tanto, Bonham Carter discorre uma resposta brilhante: "Eu pensei: ela nunca cresceu. Ela é emocionalmente interrompida, ficou presa nesse estágio. Pensei em meninos pequenos, quando eles ficam matando insetos e sentem um prazer enorme nisso. É um estágio pré-social." Essa visão permitiu que ela abordasse a vilã através de uma lente de infantilidade sádica. 

Helena revelou também que essa abordagem foi surpreendentemente acessível, descrevendo Bellatrix como "uma permissão para brincar". E como o público, majoritariamente jovem na época do seu lançamento, tendem a se identificar com o espírito de vilões infantilizados. Para explicar a adesão de Bellatrix às Artes das Trevas, Helena buscou uma motivação enraizada na insegurança familiar: "Eu pensei que, se você vem de uma família com muitas irmãs, existe algo nessa necessidade de se destacar." A lealdade extrema a Voldemort é, portanto, um mecanismo de compensação: 

Talvez seja isso: 'Eu vou me definir indo para o extremo. Vou me tornar a amante de Hitler.' Essa necessidade de ser adorada por um líder, de ser escolhida. No fundo, isso vem de uma enorme insegurança.

pontua a atriz.


Helena Bonham Carter como Marla Singer em Clube da Luta (1999). © 20th Century Fox

Sobre o trabalho de atuação, Helena responde a uma pergunta direta de Bella Freud, que menciona o comentário de um ator amigo segundo o qual é preciso "querer viver ou morrer" pela profissão. A provocação abre espaço para que a atriz descreva o ofício como uma escolha instável e arriscada. "É uma maneira insana de ganhar a vida. É um jogo de aposta", afirma. Para ela, trata-se de uma atividade paradoxal, levada extremamente a sério, mas que, em sua essência, permanece ligada à ideia de jogo e imaginação.

A atriz não romantiza o processo e reconhece a recorrência do desejo de desistir. "Muitas vezes penso: 'ok, esse é o último trabalho, estou fora'", confessa, antes de admitir que não consegue visualizar outra forma de sustento. Segundo Bonham Carter, a atuação é atravessada por medo, insegurança e ansiedade constantes, o que torna difícil identificar onde, exatamente, reside o prazer do ofício. "Existem muitas camadas de tensão", diz, ao refletir sobre o desgaste emocional que acompanha cada projeto.

Ainda assim, ela identifica momentos específicos que justificam a permanência. Um deles é a conquista do papel, quando tudo ainda parece possível. "Esse estado de possibilidade é sempre o mais empolgante", explica. O desencanto surge, segundo ela, ao assistir ao resultado final e perceber que a promessa de transformação não se concretizou. "O momento mais deprimente é quando você assiste e pensa: 'meu Deus, ainda sou eu'. É um ciclo constante: 'ah, finalmente vou me libertar dessa carcaça'... e então 'não, sou eu outra vez'." Para Bonham Carter, o verdadeiro ápice acontece apenas quando o ego silencia e o trabalho flui em confiança mútua na equipe. "Quando tudo está fluindo... Existe esse estado coletivo de entrega. Esse é um estado de êxtase."

Acho que, para qualquer artista, é isso que se tenta alcançar: aquele momento em que não há ego, nenhuma voz interna te sabotando, e algo simplesmente passa através de você.


Tim Burton e Helena Bonham Carter / © Tom Sandler


No trecho mais íntimo da conversa, a atriz retorna ao período posterior ao fim de sua longa relação com o diretor Tim Burton. Bella Freud, evoca as declarações anteriores de Helena, onde ela descreveu o divórcio não como uma simples ruptura, mas como um processo de luto massivo e "a morte de uma relação", algo profundamente desorientador que abalou sua identidade. Helena então reflete sobre o papel fundamental das amizades e do apoio familiar nesse período de "enorme mudança". No seu caso, o impacto foi ainda mais complexo por envolver não apenas um vínculo afetivo, mas também uma parceria criativa que atravessou mais de uma década. 

Ao emergir desse processo, a atriz não fala em transformação radical, mas em deslocamento. Diz que talvez nunca tivesse pensado nisso antes, mas reconhece que passou a sentir uma gratidão ainda maior pelas amizades que resistiram ao colapso e a sustentaram durante essa fase. Foram essas relações que sobreviveram ao período de instabilidade e ajudaram a carregar a família quando, segundo ela, tudo parecia desmoronar ao redor. Há, em seu relato, uma recusa em romantizar a ideia de permanência a qualquer custo. Para ela, reconhecer quando duas pessoas deixam de crescer juntas exige coragem, mas pode ser um gesto necessário de continuidade, não de fracasso. 

Bonham Carter observa ainda que nunca se casou formalmente, justamente por desconfiar da promessa de eternidade associada ao matrimônio. Essa atitude se liga à sua aversão a narrativas prontas: ao ser questionada sobre a ambiguidade de ser uma pessoa reservada em um trabalho que exige exposição, ela nega estar conscientemente "jogando" com o que revela ou esconde. Nesse sentido, o "não dar a mínima" surge como estratégia de sobrevivência emocional e criativa, uma forma de não se deixar aprisionar por expectativas externas ou pela identidade criada pela mídia sobre quem ela deveria ser.



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Não é comum que um episódio isolado de podcast com celebridades interrompa minha rotina, mas a presença de Helena Bonham Carter aqui foi suficiente. Também porque senti que este podcast soa menos como entrevista e mais como escuta. Uma sessão de psicanálise mesmo. Bonham Carter construiu sua carreira recusando arquétipos previsíveis, a favor de papéis excêntricos e deslocados (como Marla Singer em Clube da Luta e Bellatrix Lestrange em Harry Potter). Sua trajetória é marcada pela reinvenção e por uma intensidade que transcende o roteiro.

Sua participação no podcast Fashion Neurosis ocorre em um momento estratégico, alinhado à sua próxima grande produção: uma nova adaptação de Agatha Christie's Seven Dials, uma série da Netflix com previsão de lançamento para janeiro de 2026. O podcast reforça sua persona artística, que usa a moda e a visibilidade para explorar o desconforto e reafirmar uma identidade que não busca agradar, mas sim dominar a cena (seja como atriz ou em sua própria linha de roupas, The Pantaloonies).






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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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