Sinners: Vampirismo Como Metáfora – e mais o quê?

Vira e mexe voltamos a discutir o desaparecimento dos filmes originais dos cinemas. Exemplos recentes como Mickey 17, de Bong Joon-ho, de que gostei bastante, fracassou nas bilheterias. Já o live-action de A Branca de Neve, de Marc Webb, tentou alguma originalidade, mas também naufragou.
 
É quando ninguém mais espera que surge Sinners (no Brasil "Pecadores"), de Ryan Coogler, como uma exceção barulhenta. Um épico original, rodado em película, pensado para ser exibido em IMAX, lançado no mesmo dia em que nos perguntávamos: "para onde foi o risco artístico em Hollywood?" Eis que Sinners responde à altura. À primeira vista, parece o oposto de um filme de super-heróis. Um tipo de Os Vingadores do campo, ambientado quase todo dentro de um celeiro. Mas o que começa como um drama sulista de época, de tom teatral, logo escancara seus verdadeiros motivos.





"Sinners" (Imagem: Divulgação)

Divisivo por natureza, Sinners  vem sendo celebrado por público e crítica. Um sucesso comercial que já superou seu orçamento milionário, mas ainda assim deixou muitos com gosto de ferro na boca. Porque, gostando ou não, é um filme de crítica social. E não é preciso muito para morder a sua metáfora racial. 

Confesso que fui fisgado como a maioria. Por um bom tempo, achei que estava vendo um dos melhores filmes do ano. Um drama poderoso, com direção precisa, ritmo literário e personagens que pareciam respirar fora da tela. Mas então os vampiros chegaram – e com eles, a hesitação. Eu brinco com a ideia de que "se Sinners fosse dirigido por Tarantino, a construção do boteco e o recrutamento de músicos teria um único e claro objetivo: atrair vampiros para caçá-los, de forma deliberada." Inclusive, por um momento, pensei que o filme seguiria por esse caminho. Especialmente por causa da exposição de seu conceito ou lore, logo no início: 

Existem lendas de pessoas nascidas com o dom de fazer uma música tão verdadeira que pode perfurar o véu entre a vida e a morte; conjurando espíritos do passado... e do futuro. Na antiga Irlanda, eles eram chamados de Filí. Na terra dos Choctaw, eles os chamavam de Guardiões do Fogo (Fire Keepers). E na África Ocidental, eram chamados de Griots. Este dom pode trazer cura para suas comunidades. Mas ele também... atrai o mal.

Quando um filme abre dessa forma, expondo seus conceitos em vez de deixá-los emergir naturalmente ao longo da narrativa, costumo interpretar essa escolha como um receio de que sua proposta não seja imediatamente compreendida pelo público. Ou talvez exista o temor de perder o interesse da audiência antes que o elemento fantástico assuma um papel central, o que acontece apenas no último terço da história.

Essa virada sobrenatural realmente muda o jogo, deslocando a narrativa para a caçada aos vampiros. Ainda assim, ela nunca chega como uma surpresa, porque o próprio filme aponta para esse desfecho desde os primeiros minutos. No meu caso, esse incômodo foi pequeno, já que eu conhecia parte da premissa e a campanha de marketing também sugeria esse caminho. Assim, a entrada do fantástico teve menos impacto, permitindo que eu concentrasse a atenção nos elementos dramáticos que cercam essas criaturas noturnas, retratadas aqui como seres errantes, de origem desconhecida, movidos apenas pelo desejo de tomar e possuir.

Ao mesmo tempo, essa abertura parece cumprir uma função mais importante do que simplesmente antecipar a presença dos vampiros. Ela sinaliza que Sinners pretende ser lido sob uma perspectiva mitológica e cultural, e não apenas como um filme de horror. Ao aproximar tradições irlandesas, indígenas e africanas, Ryan Coogler transforma a música em um elo espiritual entre povos marcados pela opressão. Ela deixa de ser apenas uma manifestação artística para assumir um papel sagrado: preservar a memória, conectar gerações e manter viva uma identidade que forças externas – representadas pelo vampirismo – tentam constantemente consumir.

"Sinners" (Imagem: Divulgação)

O que há além disso, em especial, depois da música integrando perfeitamente a história – a ponto de o filme assumir a forma de um musical –, é um extraordinário plano-sequência no boteco, em que a música evoca espíritos ancestrais, como anuncia o prólogo. Ali, diferentes épocas, tradições e influências culturais coexistem em um mesmo espaço, como se compartilhassem uma única chama. É o instante em que Coogler torna visível a ideia dos Fire Keepers: a música não apenas entretém, ela mantém acesa a memória de um povo. Isso também conversa com a ideia de apropriação cultural, que, sob essa perspectiva, não deixa de assumir um caráter "vampiresco": consumir uma cultura sem preservar a chama que lhe deu origem.

Não por acaso, os povos nativos apresentados no prólogo ocupam um papel decisivo nessa construção. Os Fire Keepers constituem a espinha dorsal da mitologia criada por Coogler e sintetizam o principal tema de Sinners que é "manter o fogo aceso." Mais do que um dom sobrenatural, essa chama simboliza a memória coletiva, a tradição e a capacidade de um povo transmitir sua identidade apesar da violência da colonização e das tentativas de apagamento cultural. Ao reunir referências indígenas, africanas e irlandesas, o filme transforma a luta contra os vampiros na defesa daquilo que mantém essas comunidades culturalmente vivas.

Em alguns momentos, especialmente nas cenas em que os vampiros voam silenciosamente sob o céu sulista, é impossível não lembrar de Midnight Mass, de Mike Flanagan. Ambas as obras retratam seus monstros com uma sobriedade que subverte o imaginário popular. Não são caricaturas góticas ou criaturas mitológicas exuberantes, mas presenças soturnas, secas, cuja solenidade esconde uma natureza predatória. 

Em Midnight Mass, o vampiro é confundido com um anjo caído, uma figura sagrada corrompida, fundindo fé e terror de forma ambígua. Já em Sinners, os vampiros carregam outro tipo de transcendência: são herdeiros de uma violência racial e histórica. Em ambos os casos, o terror não vem apenas do sobrenatural, mas do que esses seres revelam sobre os humanos que os acolhem.

O curioso sobre a origem incerta dos vampiros, neste caso, é que quando vemos Remmick (imagem), interpretado por Jack O'Connell, pela primeira vez, ele parece cair do céu.

O que, no entanto, Sinners preserva da lenda – e de forma intrigante – é a clássica regra dos vampiros: eles só entram se forem convidados. Essa condição me remete a Deixe Ela Entrar, romance sueco de John Lindqvist, e adaptado para o cinema por Tomas Alfredson em 2008, com uma versão americana (Let Me In, 2010) por Matt Reeves. Em todas as versões, o convite (que é uma crença comum dentro do imaginário popular sobre vampiros, fortemente ligada ao folclore europeu), carrega peso simbólico. Mais do que permissão física, ele representa um pacto emocional, uma rendição. A ideia é que, ao serem convidados, os vampiros ganham um tipo de "direito" de entrar, o que representa o consentimento ou a abertura para a corrupção e a violência que eles trazem. Sinners bebe dessa fonte, mantendo o mito vivo e, às vezes, desconcertante.



"Sinners" (Imagem: Divulgação)

Em uma das cenas mais marcantes, os vampiros se reúnem em roda, cantando e dançando ao som da tradicional canção folclórica irlandesa Rocky Road to Dublin. A sequência sugere que ninguém está a salvo: nem mesmo aqueles de origens historicamente oprimidas escapam da lógica da dominação. A roda, que em outras culturas poderia simbolizar comunhão e ancestralidade, aqui se converte numa dança ancestral corrompida – uma coreografia da contaminação cultural e ideológica, onde todos, mais cedo ou mais tarde, são convertidos ou consumidos. 

Remmick não está apenas celebrando sua herança irlandesa. Ao transformar todos em vampiros e fazê-los cantar sua música, ele substitui as identidades individuais por uma única memória coletiva – a dele.

É por isso que os vampiros aqui não funcionam apenas como monstros, mas como símbolos de um sistema que suga até o último suspiro de quem ousa sobreviver fora das regras impostas. E esse desejo de poder não pertence apenas às criaturas da noite. Desde o início do filme, ele também move os irmãos vividos por Michael B. Jordan. Eles roubam cerveja, vinho e dinheiro da máfia. Tocam o terror em Chicago, entre bordéis, jogatinas e alianças criminosas. Querem poder e, mais do que isso, querem conquistá-lo à sua maneira.

Stack é o mais cruel, abandona Mary (Haley Steinfeld) sem pensar duas vezes. Smoke, com seu passado de perda e família quebrada, talvez preserve algo de mais humano. Mas nenhum dos dois é herói. Eles abrem a porta para um mal que volta com eles, corrompendo até o primo pregador, Sammy (Miles Caton), cuja música carrega justamente aquilo que o prólogo anuncia: um elo raro com suas raízes e ancestrais. Não por acaso, os irmãos enxergam seu talento com um entusiasmo quase reverente, como se reconhecessem nele um poder que ultrapassa o simples ato de tocar. Ainda assim, acabam colocando família, cultura e comunidade a serviço de um projeto individual de poder.

"Sinners" (Imagem: Divulgação)

Ou seja, aprofundando um pouco mais em seu conceito, é certo dizer que os vampiros não são exatamente uma metáfora sutil. Eles são o resultado direto das escolhas feitas por personagens que abandonaram suas raízes em troca de poder individual. Vampirismo aqui não é só uma maldição, mas uma ideologia. Uma que troca cultura por capital, espiritualidade por status, comunhão por ambição. 

Ambientado no sul dos EUA durante o regime segregacionista de Jim Crow, o filme basicamente acompanha esses três parentes negros, sendo Smoke e Stack aqueles que deixam o campo e a cultura comunitária para tentar a sorte (e o dinheiro fácil) em Chicago. Mas ao voltar para casa, não trazem só dinheiro sujo, trazem uma praga. Chicago vira o "pecado original" da narrativa. Uma cidade que representa tanto a liberdade quanto a corrupção. E o contraste entre ela e o campo é mais do que geográfico, é filosófico.

O visual também merece destaque. Rodado em película e projetado para IMAX, este não tem a estética de filmes digitais lavados. É escuro, sim, mas essa escuridão intencional vem carregada de significado. Não é uma escuridão que esconde, mas uma que revela o que realmente importa. Cada enquadramento parece dialogar com o cinema de John Carpenter, especialmente O Enigma de Outro Mundo e Príncipe das Sombras: grupos isolados, ameaçados por forças incompreensíveis, em um espaço limitado onde a paranóia toma conta.

No fim, Sinners não nos oferece uma resposta fácil – apenas um espelho sombrio. Em sua mistura de história e horror, o filme sugere que monstros reais não precisam de presas para nos devorar. Basta que sigam as regras de um mundo que já nasceu corrompido. Os vampiros aqui não são apenas brancos. O principal deles é irlandês, com seu próprio histórico de marginalização. O filme escapa da armadilha de transformar racismo em fantasia genérica. Ao contrário, ele amplia a metáfora, apontando que o mal não tem uma cor única, mas uma estrutura. A de um sistema que transforma vítimas em predadores. E que, muitas vezes, esconde seus dentes por trás de meios sorrisos e cifrões.

Nesse universo de Coogler, o verdadeiro antídoto contra o vampirismo nunca foi o alho, a prata ou a luz do sol. Mas a capacidade de manter acesa a chama da própria memória. Porque um povo que esquece sua história já abriu a porta para o monstro entrar.







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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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5 comentários:

  1. PENSE NUM FILME NOJENTO

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  2. Falha brutal no final. A cena do lago deu a entender que o que o vampiro principal sentia, todos sentiam. Então se ele morreu, pq os 2 sobreviveram?

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  3. esse botão lateral de compartilhar atrapalha muito a leitura :( mas filme e resenha excelentes hehehe

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  4. Buen argumento, hace la peli brillar más para mí

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