Sem dragões e sem pressa 'O Cavaleiro dos Sete Reinos' testa expectativas; por que assistir?
Talvez esta série chegue no momento certo justamente porque não parece ter pressa alguma. Depois de anos em que o universo de Guerra dos Tronos foi associado a excessos calculados, grandes gestos e conflitos de escala quase mitológica, há algo de provocador em uma narrativa que se recusa a competir nesse terreno. Ela testa o espectador não pelo choque, mas pela contenção. Em vez de pedir atenção imediata, exige disponibilidade. Em vez de prometer grandiosidade, sugere permanência.
A série brinca com a ideia de que não será espetacular no sentido tradicional da franquia, quase como se desafiasse o espectador a permanecer mesmo sem a recompensa imediata do impacto visual ou narrativo. Ao reduzir o volume, ela expõe algo curioso: o quanto fomos condicionados a associar importância a excesso. Aqui, a aparente falta de grandiosidade se revela uma escolha consciente, não uma limitação. Mas por que assistir?
Sor Duncan, o Alto, é uma figura que carrega algo de quase romântico em um universo conhecido por esmagar idealismos. Ele ocupa aqui o centro da experiência. O personagem nasce no texto de George R. R. Martin, em O Cavaleiro Andante, publicado em 1998, mas é na série que ele se torna o eixo sensível da narrativa. É através de Duncan que o olhar se afasta das coroas e profecias para repousar sobre a vida comum, com suas limitações, medos e ambições modestas. Os dragões, agora reduzidos a vestígios no imaginário das novas gerações, sobrevivem apenas como memória, através de relato ou encenação teatral. O poder, sem o amparo do fogo real, precisa se sustentar por outros meios. Essa ausência, longe de empobrecer o mundo, se impõe como escolha temática e, de forma curiosa, não o torna menos fantástico.
A série brinca com a ideia de que não será espetacular no sentido tradicional da franquia, quase como se desafiasse o espectador a permanecer mesmo sem a recompensa imediata do impacto visual ou narrativo. Ao reduzir o volume, ela expõe algo curioso: o quanto fomos condicionados a associar importância a excesso. Aqui, a aparente falta de grandiosidade se revela uma escolha consciente, não uma limitação. Mas por que assistir?
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| HBO |
A série abre com três cavalos na chuva. Uma imagem um tanto emblemática, considerando a chegada do ano novo chinês, o Ano do Cavalo de Fogo, o que pode soar como bobagem, mas que gosto de considerar aqui, pois, me lembrou o calendário. Com início em 17 de fevereiro, esse ano representa movimento, impulso, tomada de decisão e transformação guiados pela vontade individual, mais do que pelo poder instituído. Se isso ressoa com a imagem inicial ou com a proposta da série, não como presságio literal, mas como leitura simbólica, pode fazer maior sentido mais tarde.
Por falar em temas fantásticos, como é o universo de Guerra dos Tronos, essa nova investida foca em seu microcosmo, por assim dizer. Sem dragões e distante das intrigas diretas da realeza, a narrativa encontra espaço para observar o mundo a partir do chão. Ambientada cerca de cem anos antes dos eventos de Guerra dos Tronos e aproximadamente um século após a Dança dos Dragões retratada em A Casa do Dragão, a série se passa em um período em que os Targaryen ainda ocupam o Trono de Ferro, mas já não contam com o poder simbólico e bélico dos dragões. O foco se desloca do palácio para a estrada, da dinastia para o indivíduo. Há algo de subversivo aqui. Em vez de perguntar "o que está em jogo para o reino?", ela insiste em outra escala: o que está em jogo para alguém que não tem reino algum.
Enquanto Guerra dos Tronos é a "grande mãe", o macro no grande cosmos de Westeros, e da qual se origina A Casa do Dragão, igualmente conflituosa no que tange a obtenção de poder, O Cavaleiro dos Sete Reinos não quer superar seus antecessores. Também não é preciso. Ao escolher deliberadamente esse recorte, a série acompanha a jornada de um cavaleiro que carrega pouco além de seus cavalos e de um menino que o segue pela estrada. Esse garoto de cabeça raspada é Egg, seu escudeiro, figura aparentemente comum, mas cuja presença desde o início sugere que mesmo as histórias menores em Westeros raramente são desprovidas de camadas. Mais do que glória ou conquista, o que move essa dupla, ao menos à primeira vista, é um impulso de sobrevivência que se confunde com autossuperação.
É compreensível que possa haver um cansaço em retornar a Westeros. Depois de dragões, profecias, guerras civis e ameaças apocalípticas, qualquer nova série ambientada nesse universo corre o risco de parecer redundante ou sufocada pelo próprio legado. O que este novo capítulo entende desde cedo é que sua relação com a "grande mãe" não é de escalada grandiosa. A série abre mão da escala mítica de Guerra dos Tronos – das guerras de impacto continental e dos jogos de poder em nível dinástico –, mas não abdica da violência e visceralidade que definiram esse universo pseudo-medieval-fantástico. Quem sabe um ponto de recalibração. Porque a sensação é de que a franquia já disse tudo o que precisava dizer em volume máximo; agora precisa dizer melhor, não mais alto.
Em essência, o que O Cavaleiro dos Sete Reinos tende a nos entregar, talvez melhor do que algumas investidas recentes no universo de Westeros que dividiram opinião, é o verdadeiro impulso por trás da obra de R. R. Martin. O objetivo dos livros não é maravilhar, mas incomodar. Não é oferecer escapismo puro, mas fazer o leitor pensar sobre poder, moralidade, memória e custo humano, usando um mundo fantástico como espelho, não como fuga. Por isso, quando uma série abre mão de dragões e escala épica, ela não trai Martin. Ela se aproxima dele.
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A série estreou em 18 de janeiro na HBO e na plataforma de streaming Max (antigo HBO Max), com episódios disponibilizados semanalmente aos domingos, mantendo esse cronograma ao longo da temporada de seis episódios, com lançamentos previstos pelo menos até 22 de fevereiro.
Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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