Lanternas: Episódio 3 reinventa a origem de John Stewart e coloca Hal Jordan em xeque

Lanternas chega ao terceiro episódio disposta a fazer uma escolha que pode dividir os fãs. De um lado, ela reimagina profundamente a origem de John Stewart, que aqui cabe como uma luva ao ator Aaron Pierre, e estabelece uma relação muito diferente daquela tradicionalmente associada ao personagem nos quadrinhos. Mais do que avançar a investigação apresentada pela série, o capítulo funciona como um mergulho no passado de John, explicando como sua família e a própria estrutura dos Lanternas contribuíram para moldar o homem que ele se tornou.

Antes de falar mais do episódio, acrescento a surpresa que estou tendo com cada episódio até aqui. Mesmo que eu não escreva sobre cada um deles, tem sempre um episódio que me desperta o interesse de fazer o trabalho de bater meus dedos no teclado. Nos primeiros episódios, a série nos mostra que não está tão interessada na história de origem de seus heróis, apresentando brevemente o Lanterna Verde original Hal Jordan, desta vez vivido por Kyle Chandler, interpretando um decadente, amargurado e cada vez mais difícil, mas ainda espirituoso Lanterna graças a um humor ácido que impede o personagem de se tornar completamente sisudo. No entanto, essa brevidade muda no terceiro episódio, pois a série volta no tempo para nos mostrar mais do passado John Stewart e sua questionável família.





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A narrativa desse episódio parte de uma entrevista de John com uma Guardiã que assume uma forma humana, interpretada brilhantemente por Laura Linney. Ela adota essa aparência para tornar sua interação com John mais confortável e surge, inicialmente, com uma postura elevada, meio aristocrática, mas sem abrir mão da lisonja. 

Há, contudo, algo de profundamente inquietante em sua presença. O olhar de Linney é penetrante, daqueles que parecem atravessar o interlocutor e alcançar pensamentos que ele sequer verbalizou, como se pudesse ler sua mente. É uma figura cordial, mas nunca inteiramente acolhedora. Há sempre a sensação de que, por trás daquela aparência humana, existe algo muito maior observando e avaliando John. A partir desse encontro, a série retorna ao período anterior ao primeiro contato formal entre John e Hal Jordan, utilizando a estrutura temporal para revelar gradualmente as experiências que definiram o protagonista negro.

Um dos elementos centrais do episódio é a relação dos pais de John com a possibilidade de que um membro da família se torne um Lanterna Verde. O pai de John, interpretado por J. Alphonse Nicholson, chega a ser avaliado antes de Hal Jordan, mas falha diante de uma pergunta aparentemente simples e, ao mesmo tempo, decisiva: ele sente medo? A partir dessa rejeição, sua frustração cresce e passa a afetar profundamente a dinâmica familiar. A situação ganha outra dimensão quando a família descobre que John pode ter o potencial necessário para ocupar o lugar que o pai não conseguiu conquistar.


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A partir daí, seus pais passam a prepará-lo desde a infância para ser alguém incapaz de demonstrar medo, transformando sua criação em uma espécie de treinamento para uma função que ele próprio nunca escolheu. Em outras palavras, John foi condicionado desde criança a não ter medo. O fato de essa história partir de uma família afro-americana acrescenta outra camada à maneira como esse condicionamento pode ser interpretado. E, embora o episódio esteja interessado em uma questão bastante específica, existe algo nessa construção que me parece especialmente significativo.

Uma das questões que mais me interessa no episódio está na diferença entre o medo que atravessa o pai de John e a maneira como Hal Jordan parece lidar com essa mesma experiência. Os dois são militares treinados, mas o episódio sugere que treinamento e experiência não necessariamente produzem a mesma relação com o medo. E é aí que a história ganha uma camada que, para mim, vai além daquilo que está sendo discutido de forma mais imediata.

O que acontece naquela cena me parece ultrapassar o contexto específico do episódio. A condição de um homem negro diante do medo pode assumir uma dimensão muito maior quando colocada em perspectiva histórica e social, especialmente diante de uma sociedade na qual sua condição racial pode colocá-lo em situações específicas de vulnerabilidade. É nesse ponto que a presença do alienígena, mantido fora de quadro quando se apresenta ao pai de John, ganha outro peso, assim como a pergunta que lhe é feita. A cena passa a dialogar não apenas com o significado literal do medo para um Lanterna Verde, mas com algo muito mais humano, pois, o que significa pedir a alguém que simplesmente deixe de sentir medo quando existem razões concretas para senti-lo.



É talvez nesse ponto que o episódio encontra sua maior força dramática. John não é apresentado apenas como alguém que se tornou destemido. Ele é alguém que teve parte da própria infância retirada em nome de uma expectativa criada por outras pessoas. A série mostra o garoto afastado dos irmãos, submetido a uma preparação emocional e psicológica específica e, principalmente, condicionado a acreditar que precisava corresponder a um objetivo familiar. A escolha torna sua origem mais trágica do que heróica. Em suma, essa é uma origem diferente dos quadrinhos. 

O próprio título do episódio, "OutKast", que é uma estilização de "Outcast", estabelece um paralelo com essa ideia de exílio e exclusão. John é, desde a infância, separado do próprio meio, afastado dos irmãos e privado de uma experiência familiar comum para cumprir uma função específica. Ele se torna, de certa maneira, um pária dentro da própria família, alguém que é isolado para ser preparado para pertencer a uma instituição maior.

Segundo minha pesquisa, nos quadrinhos, a trajetória de John Stewart segue um caminho diferente. O personagem, criado por John Broome e Gil Kane em 1971, foi apresentado como um arquiteto e ex-fuzileiro naval escolhido por Hal Jordan para atuar como substituto de Guy Gardner. Sua experiência militar e sua formação como arquiteto já estavam diretamente relacionadas às características que posteriormente definiriam sua atuação como Lanterna Verde. A série, porém, toma outra direção ao reconstruir sua infância e transformar a própria família em parte fundamental da formação de John. Em vez de simplesmente adaptar sua origem, Lanternas utiliza elementos reconhecíveis do personagem para construir uma trajetória própria.


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Mas isso está longe de ser um demérito, na minha opinião. Sempre tive um olhar curioso para esse tipo de herói intergaláctico dentro da DC, especialmente por conta da série animada Liga da Justiça, que acompanhava tanto no SBT quanto no Warner Channel. O universo dos Lanternas sempre me despertou curiosidade, embora eu precisasse admitir que o design de produção dos alienígenas daquele universo me causava certo estranhamento. A enorme variedade de formas, cores e características das espécies era fascinante, mas, ao mesmo tempo, havia algo visualmente peculiar na maneira como aqueles seres eram concebidos e eu nunca compreendi seu lore por completo. Por isso, apesar da curiosidade, nunca me considerei propriamente um fã de Lanterna Verde. Pelo menos não até o lançamento de Lanternas.

A mudança em relação à origem tradicional de John Stewart certamente pode incomodar parte dos fãs, mas o episódio demonstra que a intenção não é simplesmente alterar o personagem por alterar. A nova origem procura estabelecer uma conexão entre sua personalidade, sua criatividade e a dificuldade que ele tem para se relacionar emocionalmente com outras pessoas. Um dos melhores momentos do episódio acontece quando John, depois de ser afastado de sua trajetória militar, decide seguir um caminho próprio e ingressa em uma escola de arte.

A escolha é particularmente importante porque a criatividade possui relação direta com aquilo que um Lanterna Verde é capaz de fazer. John não encontra seu caminho por conseguir eliminar completamente o medo, mas quando deixa de viver exclusivamente em função da expectativa dos outros. A sequência em que ele utiliza sua memória para reproduzir o pai por meio de uma construção do anel funciona como uma síntese bastante eficiente de toda essa trajetória. O garoto treinado para ser um soldado finalmente encontra uma forma de expressão que pertence a ele.

É também nesse momento que a série estabelece uma conexão com o primeiro episódio e com o misterioso pássaro criado por John. O elemento, aparentemente pequeno, ganha um novo significado quando descobrimos sua relação com a infância do personagem e com a maneira como os Guardiões acompanharam seu desenvolvimento.


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A estrutura do episódio merece destaque. Em vez de simplesmente apresentar uma exposição sobre o passado de John, Lanternas transforma sua história de origem em uma narrativa que gradualmente retorna ao ponto de partida. A montagem temporal, as atuações e a trilha sonora contribuem para que o capítulo funcione como um estudo de personagem. Se John Stewart recebe uma origem expandida, Hal Jordan passa por um processo igualmente significativo, embora muito mais controverso. A relação entre os dois não é apresentada inicialmente como a parceria heroica que muitos espectadores poderiam esperar. Hal é mais velho, experiente e continua carregando características que fazem dele uma figura difícil de admirar em determinados momentos.

O episódio também introduz discussões relacionadas à raça e ao privilégio dentro da própria origem de John. Uma fala da mãe do personagem sobre a diferença entre a maneira como Hal foi aceito pelo sistema e aquilo que John precisaria enfrentar tornou-se um dos pontos mais discutidos do capítulo. A questão, entretanto, precisa ser analisada dentro do contexto da personagem que pronuncia essas palavras. O episódio não apresenta os pais de John como autoridades morais. Pelo contrário. Eles são progressivamente retratados como pessoas que, embora tenham suas próprias experiências e ressentimentos, projetam suas frustrações sobre o filho. A ideia de transformar John em um Lanterna Verde nasce dessa necessidade de provar alguma coisa ao mundo e compensar aquilo que consideram uma injustiça.

Existe, portanto, uma ironia bastante interessante nessa construção: uma família que desconfia de uma instituição de poder acaba moldando o próprio filho para ser aceito por essa instituição. A série não parece necessariamente afirmar que tudo o que os pais dizem está correto. Em muitos momentos, ela parece fazer exatamente o contrário: mostra como uma visão de mundo construída a partir de ressentimento pode produzir consequências igualmente problemáticas dentro da própria família.


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É aqui que Lanternas assume um risco maior. Hal Jordan é deliberadamente apresentado como um personagem mais complexo, mas a combinação entre sua personalidade, os conflitos com John e determinadas atitudes relacionadas à questão racial pode fazer com que parte do público interprete sua caracterização como uma desconstrução excessiva do herói. O episódio ainda estabelece que os Guardiões têm interesse em substituí-lo, em parte por sua proximidade com Sinestro. Isso adiciona outra camada ao conflito e sugere que o problema de Hal não está limitado à relação com John. A questão é saber até onde a série pretende levar essa desconstrução. 

Se Hal realmente está destinado a morrer futuramente, como a própria narrativa sugere no episódio piloto, existe pouco espaço para uma trajetória convencional de redenção. Isso torna suas cenas ainda mais importantes, porque o espectador precisa compreender se está diante de um herói imperfeito que terá espaço para mudar ou de uma personagem deliberadamente construída para representar uma geração anterior dos Lanternas que precisa ser substituída. Por enquanto, essa resposta permanece em aberto. E talvez seja esse o maior mérito e o maior risco do episódio.

Uma polêmica que ganhou vida fora da série foi a discussão em torno de Hal Jordan, que acabou ganhando força por comentários de pessoas ligadas à produção e ao universo da DC nas redes sociais. Isso é particularmente problemático porque transforma uma questão que poderia ser debatida a partir do próprio episódio em uma disputa externa sobre as intenções da produção. Quando a própria equipe começa a confirmar determinadas interpretações antes que a história tenha terminado de desenvolvê-las, existe o risco de limitar a leitura do público. A série deveria poder apresentar um personagem controverso e permitir que os espectadores decidam por conta própria o que aquilo significa.



No caso de Lanternas, isso é ainda mais importante porque o terceiro episódio claramente não está interessado em apresentar respostas fáceis. Os pais de John são problemáticos. John é resultado dessa criação. Hal é um personagem cheio de contradições. Os Guardiões também demonstram possuir uma visão extremamente limitada sobre os seres humanos. Transformar tudo isso em uma discussão binária sobre "quem está certo" reduz consideravelmente a complexidade que o próprio episódio tenta construir.

Este é sem dúvidas, um dos episódios mais ambiciosos da temporada. Independentemente da controvérsia, ele é um capítulo particularmente bem construído. A direção, a montagem temporal e cíclica, as atuações e principalmente a maneira como o passado de John é conectado ao presente mostram uma série cada vez mais interessada em desenvolver seus personagens para além da função de super-heróis.


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A nova origem de John Stewart pode ser para muitos uma mudança considerável em relação aos quadrinhos, mas funciona porque existe uma lógica interna para ela. O personagem não parece descaracterizado. Pelo contrário, sua criatividade, seu distanciamento emocional e sua relação complicada com a ideia de medo ganham novas e debatíveis justificativas.

O mesmo ainda não pode ser dito com tanta segurança sobre Hal Jordan. A série está claramente fazendo uma aposta arriscada com ele. Há uma diferença importante entre transformar um herói em uma pessoa imperfeita e simplesmente torná-lo desagradável. Lanternas ainda precisa demonstrar em qual desses caminhos pretende seguir. Por isso, o episódio merece ser analisado com alguma cautela. Não é necessário ignorar os problemas de determinadas escolhas para reconhecer a qualidade da construção narrativa, assim como não é necessário rejeitar o capítulo inteiro por causa de uma caracterização que pode continuar sendo desenvolvida nos episódios seguintes.

No fim, o terceiro episódio de Lanternas funciona justamente porque não tenta entregar uma origem confortável para John Stewart. Ele mostra que o homem escolhido pelo anel foi, em grande parte, moldado por pessoas que queriam que ele fosse escolhido. E, ao colocar Hal Jordan no centro de uma discussão igualmente desconfortável, a série deixa uma pergunta ainda mais interessante para os próximos capítulos: quem John Stewart realmente seria se tivesse tido a oportunidade de escolher seu próprio caminho?









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Francisco P. Neto
Criador e editor do CaroCineasta.
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